Vinhos do Peru: conhecendo Pepe Moquillaza, um narrador de histórias líquidas

Os vinhos me guiam, me indicam por onde seguir para conhecer lugares, pessoas, histórias, cidades e, é claro, vinhos. Gosto de conversar em torno do vinho. Mas, se o vinho é apenas um pretexto para conversar, é ainda melhor.

A motivação

Foi num sábado, na iminência de preparar a caipirinha que acompanharia a feijoada que seria servida no almoço, já com os limões galegos na mão, que me deparei com o bar carente de cachaça. Também não havia vodca ou rum, substitutos usuais para misturar com os limões. Tentando buscar uma solução que não fosse a clássica “se não há solução, o problema está solucionado: sem solução” – e sem caipirinha – notei uma embalagem esquecida no bar como um enfeite, um presente que já não lembro quem deu. A caixa dizia Pisco. E que não estava disfarçado de índio INCA, como aquelas garrafinhas que os amigos, que visitaram Machu Picchu, trouxeram como lembrança.

pisco_reservado1-1Curiosa, tirei o pisco da embalagem. E, surpresa, constatei que o líquido era transparente como a cachaça, a vodca, o que seria já meio caminho para se parecer com uma caipirinha. Misturei os limões macerados no pilão, com gelo, açúcar e uma dose generosa de Pisco. Na aparência era uma caipirinha. Mas na boca não parecia uma caipirinha, nem uma caipiroska tão pouco. Mas, para quem não conhecia pisco, o resultado ficou muito bom. Dei outro gole. O Pisco parecia ter suavizado os limões galegos. O álcool, que definitivamente estava presente, pois o rótulo da garrafa ostentava 48 graus GL, não se exibia e parecia tornar a bebida mais doce do que a quantidade de açúcar que eu havia colocado. E sim, o que me intrigava era que eu sentia no nariz um aroma que me lembrava vinho. E tudo que lembra vinho me atrai –  os vinhos me guiam, como eu já mencionei. O aroma de vinho não seria surpresa se eu soubesse que o Pisco é elaborado a partir do mosto de uvas, como o vinho! Coloquei a jarra da caipirinha de Pisco no bar e fui pilotar meu smartphone. Já havia passado da hora de saber mais sobre o Pisco.

Pisco é um destilado de mosto de uvas, que também é a base para a produção de vinho. Foram os espanhóis que trouxeram as videiras para a América recém conquistada, para produzir vinho e assim dotá-la de artigos que estavam habituados a consumir na Espanha. E foi no Peru onde isso aconteceu primeiro. As condições favoráveis do solo e do clima permitiram produzir muito vinho, o que transformou o Peru no principal produtor de vinhos da América nos séculos XVI e XVII. Era tanto vinho que resolveram destilar parte do mosto produzido no Peru. Esse destilado era exportado pelo Porto de Pisco, daí o nome Pisco. O Peru não é hoje um país reconhecido pela sua produção de vinhos como são, por exemplo, o Chile e a Argentina, porque vários fatores ao longo dos séculos – terremotos, proibições de exportação, pragas, guerras – levaram à diminuição da cultura das videiras. Somente no século XX, o incentivo à produção de Pisco, como um produto típico peruano, acabou por aumentar e melhorar a produção de vinho.

Larguei o smartphone. Bebi mais uns goles da mistura de Pisco e limão. Olhei a garrafa de Pisco e, finalmente, entendi que, mais uma vez, tudo havia sido engendrado no universo paralelo onde os vinhos me orientam por onde seguir. Descobrir o Pisco, um destilado nascido como nascem os vinhos, do mosto de uvas, há tanto tempo esquecido no bar, me fez enxergar os vinhos do Peru!vinhoperu

Esbarrando no Peru de novo

No final de semana seguinte, numa festa, o tema vinhos surgiu na conversa com pessoas que acabara de conhecer. Aproveitei para contar a história do Pisco, da minha ignorância sobre o assunto e que, sim, há vinhos no Peru. Foi quando uma dessas pessoas, interagindo com o assunto recém lançado à roda, disse que seu pai era peruano e por isso já conhecia os vinhos do Peru, onde vai com frequência para rever parentes. A partir daí, a conversa enveredou para o Peru. Falamos de vinho, das belezas do país, do povo, da comida, de Pisco, dos chefs famosos. E concluímos que o Peru é muito mais que Machu Picchu.

Coincidência, o assunto dos vinhos do Peru ter surgido duas vezes em uma semana? Só se eu não acreditasse que os vinhos me guiam.

Destino: Peru

Eu tinha que conhecer os vinhos do Peru! Já estava convencida! O que eu tinha que fazer, depois daquela decisão, era descobrir para onde ir, o que ver, o que e quem conhecer. Sem nunca ter ouvido falar de vinhos do Peru, a web não era o caminho mais fácil, mas parecia ser o único caminho que poderia me levar aos meus desejos. Soprei no ouvido do meu guru Google minhas palavras de ordem para encontrar os vinhos naturais peruanos, minha já não tão nova paixão: vinhos naturais, Peru, orgânico, biodinâmico, artesanal, típico, leveduras indígenas. Com o que o Google me devolvia, fiz outras combinações: América, rotas de vinho, uvas criollas, leveduras indígenas, uvas pisqueras. E assim, fui encadeando minha mente com a engine do Google. Depois de algum tempo de pesquisa, meio desapontada, concluí que a maior parte da informação que obtive não me interessava: grandes bodegas, indústrias de vinho, vinhos de castas francesas, italianas, produtores europeus. O que me interessava, o vinho natural, o vinho típico peruano, reduziu-se, depois de muita pesquisa a um nome: Pepe Moquillaza.

Se Pepe Moquillaza era o caminho e o meu destino no Peru, era preciso descobrir quem era esse produtor. Para saber o que seria possível conhecer e como fazer contato.98595

Quem é Pepe Moquillaza?

Pepe Moquillaza é figura conhecida no Peru. É embaixador do Peru para o Pisco. Por conta de um ano sabático – precisava distanciar-se por um tempo dos assuntos com que lidava num alto cargo público – decidiu levar adiante o sonho de fazer seu próprio Pisco, como já havia visto produtores artesanais fabricarem na sua Ica natal. E o ano sabático se transformou no seu projeto de vida, pois vem fazendo o Pisco Inquebrantable desde 2003, reconhecido como um dos melhores do Peru. O sucesso de sua empreitada, o levou a acreditar que as uvas pisqueras não poderiam ser limitadas ao pisco, pois, na época das colônias, eram a base da produção de vinho também. Foi assim que surgiu o Pepe produtor de vinhos naturais, pois os elabora como o pisco, de modo artesanal, sem intervenções, com fermentação natural. Uau! Que história.

Porque conhecer Pepe Moquillaza?      

A oportunidade de conhecer vinhos que expressassem a tipicidade do Peru, como os que Pepe Moquillaza produzia, seria um bom motivo para ir ao Peru.

Conhecer Pepe Moquillaza, depois de saber sua história, seria um ótimo motivo para ir ao Peru.

Mas conhecer um narrador de histórias líquidas, como Pepe Moquillaza se definiu em sua página no facebook, tornava imprescindível a viagem ao Peru, Eu precisava conhecer o homem que definiu com poucas palavras seu papel no mundo do vinho. E, de quebra, me fez entender o meu papel no mundo do vinho: sou uma ouvinte dessas histórias líquidas que produtores, como Pepe, contam.

Decidi mandar um e-mail para Pepe Moquillaza me apresentando como uma apaixonada pelos vinhos naturais, que gostaria de conhecer seus vinhos. Ele, gentil, rapidamente concordou!

Convidei a amiga de todos os vinhos para conhecer o Peru de Pepe Moquillaza. Contei tudo, desde o Pisco na estante de casa. No fim, mais uma ansiosa por conhecer o narrador de histórias líquidas.

No Peru, Lima

Chegamos eu e minha amiga em Lima já tarde da noite. O motorista do táxi seguiu pela via costeira. O mar, distante poucos metros, parecia não estar lá, escondido pela neblina densa, que envolve Lima boa parte do ano. Pepe Moquillaza, no dia seguinte, ao vivo e a cores, deu algumas sugestões de onde comer e do que fazer até que nos encontrássemos à noite no La Gastrónoma, quando, livre de seus afazeres, nos apresentaria seus vinhos.

As sugestões de Pepe: para entrar no clima do Peru

Fomos, eu minha amiga, andando por Miraflores até o Costanera 700, a sugestão de Pepe para o almoço, um restaurante onde as gastronomias peruana e japonesa se fundem. É assim que está descrito no site do restaurante. E é exatamente isso que encontramos no cardápio, que olhamos por curiosidade, porque pedimos o que Pepe nos sugeriu: ceviche costanera, causa pulpo, batayaki de lagostins e Pisco Sour, com Pisco Três Generaciones. Pedimos, mesmo sem saber exatamente o que era causa e batayaki! Mas as sugestões de Pepe foram maravilhosas: tudo leve, fresco, delicioso e… perfeito com o Pisco Sour. Ah, o batayaki é um tipo de cozimento à base de manteiga e alho, servido na chapa quente e a causa era um escondidinho de batata.

 

Depois desse começo, aclimatadas ao Peru, saímos para caminhar pela orla de Miraflores, repleta de lindos parques e malecons. Fomos até a Ponte dos Suspiros em Barranco. Um lugar que merecia mais tempo para ser explorado, não fosse o iminente encontro com Pepe.

La Gastrónoma ou o primeiro encontro com os vinhos e Pepe

Depois de um dia caminhando por Miraflores, achávamos que conhecíamos a cidade. A La Gastrónoma ficava na Calle Libertad 439.

“Fácil chegar lá: a rua começa na Avenida José Pardo, por onde passamos duas vezes hoje.” – disse minha amiga, confiante.

Saí do hotel, seguindo minha amiga, em direção à Calle Libertad. Depois de percorrê-la duas vezes sem encontrar o número 439, impaciente, saquei meu smartphone, acionei o Google Maps e descobri que o número que procurávamos ficava num trecho da Calle Libertad que fazia um ”desvio” depois que, aparentemente, acabava.

“Eu encontrei a Calle Libertad. Não tenho culpa, se tem um pedaço dela que se esconde.” – disse minha amiga – não admitindo sua derrota para o aplicativo.

Quando chegamos, Pepe nos esperava na varanda do La Gastrónoma, que é uma loja o

nde pode-se encontrar produtos orgânicos e típicos do Peru: vinhos naturais, pães de fermentação natural, cafés, chocolates, cervejas, queijos artesanais e comidinhas para petiscar. E, é claro, os vinhos que Pepe Moquillaza produz. Naquele ambiente agradável, confortavelmente acomodados, contamos a nossa história e o que soubemos da história dele pela internet.

Os vinhos de Pepe

Tudo começou com o Pisco. Pepe é de Ica, região onde é produzida a maior parte do pisco no Peru e onde está localizado o distrito de Pisco. Naquela região, é natural que o Pisco faça parte da vida das pessoas: na mesa, produzindo, degustando, conversando. Como muitos iquenhos, Pepe sempre sonhou em produzir seu próprio pisco. Quando surgiu a necessidade de parar por um ano –o ano sabático, ao deixar um alto cargo público – resolveu produzir seu Pisco de quebranta, o Inquebrantable, para resgatar a tradição da produção de Pisco e valorizar a uva quebranta. Porque a quebranta? Simples: é uma variedade que sofreu uma mutação – de negra criolla e negra mole, trazidas na época em que o Peru era ainda uma colônia – para se adaptar ao terroir desértico de Ica, ou seja, uma uva autóctone do Peru. Uma uva resistente: resistiu à filoxera e vem sendo utilizada como porta-enxerto, além de produzir em pé franco. Era a uva para produção de vinho e Pisco, à época da colônia. Então, se é para resgatar a tradição, a essência do Peru, deve-se utilizar a quebranta, argumentou Pepe.

Com técnica – colheita manual, fermentação natural e longa, botijas de argila – foi possível mostrar o potencial da quebranta, para ele, a rainha das uvas no Peru. O ano sabático acabou, mas a produção do Inquebrantable continuou, e transformou-se na sua principal atividade.

Pepe é hoje um produtor consagrado de Pisco. O Inquebrantable está presente nos melhores restaurantes do mundo: Can Roca, em Barcelona e, ali no Peru, no Central de Virgílio Martinez. Nos seus Inquebratable, está engarrafada a essência do Peru.

E os vinhos? Quando começou a pensar neles?

“Porque não se fazem vinhos, como se faziam na época das colônias? Porque não se fazem vinhos de uvas coloniais? Porque não se pode fazer vinho de quebranta, por exemplo? “

Sua resposta a essas perguntas foi ação: produção de vinho de quebranta.

Mas conversar com vinho seria muito melhor. Estávamos no La Gastrónoma para isso. Para conversar com Pepe em torno dos vinhos que faz com seu sócio Camilo Quintana, na Bodega El Quintanar, em San Juan de Ihuanco, Cerro Azul, província de Cañete. Um desdobramento da parceria para produção do pisco Inquebrantable, desde 2003.

O primeiro vinho que nos apresentou foi o Albita, um vinho laranja, resultado de um corte de duas uvas pisqueras; Albilla e Itália. Pepe explicou que para domar as uvas pisqueras e fazer um vinho laranja, fez a colheita antes que amadurecessem completamente. Com isso, teriam mais acidez. Com essas uvas, fez maceração carbônica. Para a cor laranja, deixou as cascas em contato com o mosto por 60 dias e depois foram para as botijas de argila.

Com o Albita nas taças e a garrafa circulando por nossas mãos, para conferir os rótulos, tirar fotos, sentimos o vinho e bebemos nosso primeiro gole. Enquanto Pepe analisava seu vinho, eu me preparava para dizer que nem sempre encontro as palavras certas para expressar o que estou sentindo, mas ali era fácil perceber a fruta, o aroma doce da passa. O que poderia parecer oxidado, caía bem.  O vinho estava perfeito para a noite singular que se iniciava. Contei que no ano passado, quando estive em Mendoza, os vinhos laranja dos Michelini me deixaram fascinada e que virei fã: dos laranja e dos Michelini. E que o vinho de Pepe também me dava essa sensação. Foi quando ele contou que tem um projeto com Matías Michelini, que juntos produzem vinho no Peru e aguardente de vinho em Mendoza. Ambos com a marca MIMO, de Michelini e Moquillaza.

De novo, não era coincidência. São os vinhos que me guiam…

E o Albita foi conduzindo a conversa, permitindo desencavar “Pantaleão e as Visitadoras”, filme que me apresentou o Peru e que me transformou numa leitora de Mario Vargas Llosa.  Pepe disse, então, que o ator principal do filme agora é ministro da cultura! Procuramos sua foto na web. E concordamos que envelheceu bem.

Entremeado com queijos artesanais peruanos, de cabra, de vaca, de leite cru, a garrafa de Albita foi se esvaziando, alavancando a conversa, ora como protagonista, ora como coadjuvante, trazendo assuntos que só se consegue associar a um vinho singular como o Albita.

Quando a garrafa se esvaziou, ficamos tentadas a repetir a dose, mas Pepe queria que provássemos seu Quebrada de Ihuanco, que é o primeiro vinho que elaborou.

Enquanto o vinho era aberto, Pepe contou que nem tudo para a quebranta era sucesso, na produção de vinhos. Os tintos de quebranta tinham pouca cor, pouco corpo, pouco aroma. Não eram o que se esperava de um vinho tinto.

O problema não era do potencial da quebranta. O problema era enxergá-la e vinificá-la como uma uva tinta, quando é uma uva gris! Seus vinhos não poderiam ser tintos, e não estavam aquém do que se poderia obter, mas como um clarete, refletiam em cor e aromas a essência da uva, de Ica, do Peru. Com esse novo olhar – vinhos que refletiam a essência do Peru – percebeu-se que seria possível escoltar a alta gastronomia peruana, que também busca a essência do Peru. Uma visão surpreendente, que encantou chefs de restaurantes, como o Central de Virgílio Martinez, que praticam essa alta gastronomia.

Mas era hora de provar o Quebrada de Ihuanco. A garrafa que estava à mesa era de 2013, de uvas de pé franco. Um vinho fresco, com um aroma de mel que ficava na boca. Delicioso. Pepe ressaltou que o casamento com a alta gastronomia peruana acontecia, porque seus vinhos não lhe tapam. Gostei do verbo. Tapar. Seus vinhos deixam que a comida se exiba! São acompanhantes que só fazem destacar as sutilezas desse tipo de gastronomia.

Pepe diz que todo vinho conta uma história. O Quebrada de Ihuanco vai contar durante muito tempo a história de uma uva criolla que saiu de Ica para as mesas de restaurantes estrelados.

 

 

Entre goles de Quebrada de Ihuanco, fomos ficando cada vez mais encantadas com a visão de Pepe para o mundo do vinho e do pisco e de como podem ser atividades sustentáveis para a população peruana.

A noite terminou com esses dois vinhos. Combinamos de provar os vinhos que Pepe elabora com Matías Michelini, os MIMO, em Ica, na hacienda onde são produzidos.

Dali saímos andando por Miraflores. Apreciando o movimento das pessoas. Pepe fez questão que provássemos o sorvete de lúcuma, fruta típica de Ica. Valeu a pena!

 

A Viagem para Ica

“Você não acha que está levando muita coisa para ficar apenas uma noite em Ica?, disse para minha amiga enquanto preparava sua mala para a viagem à Ica

“Nunca se sabe!”

“Mas porque você vai levar um canivete?”

“Podemos precisar.”

“Em que situação exatamente?”

“Descascar uma fruta…”

“Nós vamos de carro até Ica e lá vamos nos hospedar num hotel. Já considerou nesse contexto a necessidade de um canivete?”

“O carro pode enguiçar. Podemos ficar na estrada sem comunicação. Sem ter o que comer, teremos que nos alimentar de frutas que encontrarmos na mata.”

De carro, fomos deixando o trânsito pesado de Lima, cortando pela Panamericana Sur, uma cidade diferente daquela que havíamos percorrido nos últimos dias. Ao lado da estrada, enquadradas pela janela do carro, mimetizadas à montanha de areia marrom, casas simples de madeira espalhavam-se até desparecem na neblina de Lima.

Seguimos. Ao longo da estrada tranquila, as montanhas de areia foram ficando menos habitadas. E o céu, cada vez mais limpo.

Primeira parada

 

Paramos para comer pão de lenha. Um com manteiga, outro com azeitonas pretas e café.

Simples, frescos, quentes e comidos com prazer.

No caminho, plantações de mandioca. Criação de galinhas. O mar longe. Areia. E um sol que dá a Pepe a certeza que já está em Ica.

Segunda parada

Chegamos a Pisco, epicentro de um terremoto, que há dez anos destruiu parte de uma cidade, que está intacta na memória de Pepe. Ele vai mostrando o que já não está lá, as construções retas, parecendo caixotes, que deram lugar aos casarios coloniais e os lugares onde a reconstrução ainda acontece.

 

 

 

Nosso destino –  para o almoço – era o restaurante As de Oro’s.

Lá, o pescado fresco é a grande atração.

Comemos ceviche, choclos, ostras. Foi lá que bebi minha primeira chicha, bebida de milho vermelho com canela, típica do Peru. Tudo fresco e saboroso. Levíssimos, voltamos para a estrada.

 

Terceira parada

No porto de Pisco, os piscos, como são chamadas as aves em quéchua, a língua dos antigos habitantes do Peru, não decepcionaram. Ainda voam por ali para contar que é daquele porto que saía a aguardente de vinho que em sua homenagem virou Pisco.

 Quarta Parada

Seguimos até Paracas. Pepe queria que bebêssemos um Pisco Sour em Pisco. Escolheu um lugar on

de a preparação fosse tradicional, o Hotel Paracas, na costa do Pacífico Sul.

 

 

 

Observamos o barmen preparar o coquetel: limão, pisco, clara de ovo, açúcar e um amarguinho. Minha amiga vidrada no liquido que ele despejou no copo admitiu que estava apaixonada pelo Pisco Sour. O coquetel estava perfeito!

 

 

 

 

No caminho, uma botija de argila meio enterrada na beira do mar. Um adereço quase cenógrafico para lembrar dos métodos de fermentação de pisco.

 

Quinta parada

Chegamos ao hotel El Carmelo, onde nos hospedaríamos. Uma antiga hacienda onde também se produz pisco. Na hora que chegamos acontecia uma festa para promover o Pisco entre representantes de turismo de alguns países da América. E nem é preciso dizer que havia muito pisco, pisco sour, chilcano, música e dança. Ficamos um pouco, mas ainda haveria uma última parada naquela noite.

 

Sexta parada

Do hotel fomos para o Oásis de Huacachina, Lá no meio de toda aquela areia há um lago cercado de árvores. Em volta restaurantes, hotéis. Andamos sem pressa aproveitando a noite.

 

O dia tinha sido maravilhoso. Mas, de volta ao hotel, eu só queria tomar um banho e dormir. Minha amiga, animada, queria ir para a festa do pisco que acontecia no hotel.

”Deixa de ser desanimada: não combina com nossa road trip Louise” – ela disse, numa alusão ao filme Thelma e Louise.

Lembrei-lhe que no filme a Louise cometia um crime. Que poderia se repetir nessa road trip por Ica, caso continuasse me impedindo de dormir.

Ela saiu batendo a porta e voltou alguns minutos depois. A festa havia acabado.

Hacienda Quilloay: onde nascem os MIMO 

No dia seguinte, nosso destino era conhecer a Hacienda Quilloay, onde Pepe está elaborando vinhos em parceria com Mathías Michelini – produtor do Valle do Uco em Mendoza: os MiMo (MIchelini e Moquillaza), Em Mendoza, os dois produzem aguardente de vinho.

No caminho, antigos caminhões, muros de pirca, rústicos, de pedra, como faziam os incas.

A Hacienda Quilloay é um condomínio de terrenos e casas com que possui uma antiga bodega para produção de pisco com botijas de argila artesanais e fermentadores de cimento (40, cada qual de 1800 litros) e 1 hectare de vinhas, que podem ser utilizadas pelos proprietários do condomínio.

 

 

 

As instalações dessa bodega sofreram, como muitas de Ica, com o terremoto de 2007, mas está num processo de recuperação e reconstrução. Percorremos a bodega, andamos sobre os tanques de cimento, enquanto Pepe nos contava sobre a parceria, de suas viagens à Argentina, para produzir aguardente de vinho com Mathías Michelini.

 

 

A conexão desses dois renomados produtores foi o resgate das uvas autóctones e, com certeza, os inusitados vinhos elaborados de uma típica uva pisquera. Quem não se encantaria pela história dos vinhos de Pepe Moquillaza?

Ali, na bodega, os Mimo existem em todos os estágios: nos tanques, depois de macerados; nas botijas; nas barricas e já engarrafados. Pepe, cuidadoso, conferia cada detalhe. São três, os vinhos produzidos na parceria: o Tinto de Ica, um corte de quebranta e moscato rosso, que fica 8 meses em barrica usada e dois laranjas: um de Itália – uvas dali mesmo do condomínio – e o outro, de torrontel, que passa 4 meses nas antigas botijas de barro da bodega.

Conforme prometido, Pepe abriu os Mimos, para que provássemos. Todos, muito intensos, com muita fruta. Os laranjas são apaixonantes. Uns goles daquele vinho e um filme de nossa viagem, desde Lima até a Ica passou pela cabeça. Era mais do que o terroir de Ica que se percebia na boca, no nariz.

Era uma viagem pelas emoções e ideias de Pepe Moquillaza, espelhadas em cada detalhe: os lugares que fez questão de nos apresentar, os rótulos dos vinhos, na bodega centenária que quer recuperar, no condomínio que propõe um estilo de vida sustentável, nos métodos de fazer pisco, nos nomes dos vinhos que já dizem ao que vem.

 

 

 

 

Quase hora do almoço. Hora de voltar para Lima também. Fomos embora e almoçamos no restaurante da estação, a comida típica de Ica. No caminho de volta, não houve tantas paradas. Aos poucos, o sol e o céu limpo de Ica foram cedendo a vez para as brumas limenhas.  Apesar do Peru ser mais que Machu Picchu, não resistimos e fomos conhecer a cidade Inca e Cusco.

 

Na volta ainda encontramos Pepe outras vezes em Lima. Para almoçar, para andar pela orla de Lima, para conversar. No El Gran Combo, restaurante de Gonzalo Pajares, onde nos deliciamos com um lomo saltado, flambado no pisco, vimos Pepe Moquillaza defender o pisco como um produto peruano para uma TV local. Por fim, Pepe nos brindou com uma dose de seu Inquebrantable.

 

No aeroporto de Lima

A viagem ao Peru nos permitiu não só conhecer a cultura em torno da quebranta, mas alguém que tem uma causa pela qual acordar todos os dias: Pepe Moquillaza. Sua causa é o Peru. O Pisco e os vinhos são suas paixões e suas ferramentas.

Ah, minha amiga, apegada ao seu canivete, colocou-o em sua bagagem de mão, sabe como é, para ficar mais perto, esquecendo que é um item proibido neste tipo de bagagem. Ao passar pelo raio x, o canivete se mostrou e sorriu para a funcionária do aeroporto  Em seguida, minha amiga viu seu canivete ser arrancado para sempre de seu convívio. Ele ficará em Lima. Para sempre. Desconsolada embarcou para o Brasil. Mas ela vai superar.

 

 

O primeiro vinho natural a gente não esquece, principalmente se for da Bodega Cauzón

Duas frases que ouvi antes e durante a viagem à Espanha: “Não deixe de conhecer Alhambra!” e “Granada é muito mais que Alhambra!”. Separadas, pareciam disputar uma queda de braço: de um lado Alhambra, do outro o resto de Granada. Mas como uma única frase – “Não deixe de conhecer Granada: há Alhambra e muito mais.”, resumia o que pretendia fazer em Granada. E para garantir minhas pretensões, comprei, antecipadamente, o ingresso para uma visita noturna a Alhambra.

 

E busquei, com a ajuda do meu guia cibernético – sempre ele, o google,  além dos muros da fortaleza, a tal Granada que merecia ser conhecida e que eu gostaria de conhecer: as bodegas, os vinhos de Granada.

 

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Para quem não sabe exatamente o que quer, 455.000 respostas. Na primeira, o endereço eletrônico de um restaurante, não era o que procurava. Mas a segunda, achei que valeria a pena navegar. Cliquei. Era exatamente o que eu queria: um sitio eletrônico com informações, entre outras, sobre enoturismo no entorno de Granada, com possibilidade de visitas à bodegas e degustações de vinhos. Continuei a navegação para o endereço eletrônico das bodegas, para saber um pouco mais. Duas delas produziam vinho natural. Vinho natural? Perguntei à amiga que me acompanhava na viagem se ela sabia o que era ou se tinha bebido vinho natural.

Já bebi artificial. Sangue de Boi. Mas isso é passado.

E lá fui eu para o google de novo, para tentar desvendar o que era vinho natural.

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Mais uns cliques e algumas leituras. Descobri que vinho natural é aquele produzido com um mínimo de intervenção, sem sulfito. E, o mais interessante, é que a terceira resposta das 17.100.000 respostas para minha pergunta “vino natural que es” é uma bodega que produzia vinho natural e que ficava em… Granada

Eu sabia que as pesquisas que o google faz para um usuário, eu, no caso, tem relação com seu perfil de pesquisas – eu tinha acabado de pesquisar sobre Granada. Mas preferi enxergá-lo como um oráculo dessa vez, me revelando no mundo virtual por onde seguir no mundo real dos vinhos. Como ficaria em Granada dois dias, agendei duas visitas a bodegas. A primeira para a Bodega Cauzón, descoberta na primeira pesquisa, 50 km distante de Granada. A segunda para Barranco Oscuro, mais distante, resultado da pesquisa sobre vinho natural. A Granada além de Alhambra estava garantida.

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Chegou o dia: estava na estrada, em direção à primeira bodega a ser visitada, a Bodega Cauzón. No caminho, a Sierra Nevada em pleno verão. Parecia um aperitivo para qualquer que fosse o resultado da visita.

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Sem grandes dificuldades – o que significa que houve retornos fáceis para os caminhos errados e as pessoas a quem perguntei como chegar ao meu destino foram objetivas –  estacionei em frente à Bodega Cauzón, cerca de 50 km de Granada, 1000 metros acima. Na hora combinada Ramón Saavedra estava na porta de sua Bodega.

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Contei-lhe sobre a trajetória desde “Granada é muito mais que Alhambra” até sua bodega de vinhos naturais. E que tinha ficado curiosa com o assunto vinho natural. Estava escrito, disse sorrindo. Por caminhos que só o mecanismo de pesquisa do google consegue percorrer. Pensei.

Apresentou a estrutura da bodega, que não é muito diferente de outras bodegas: equipamento para maceração das uvas, tanques de aço inox para fermentação, caixas com garrafas de vinho. Tudo organizado, limpo e refrigerado.

Foi, então, que fiz a primeira pergunta clichê: Porque decidiu fazer vinho? Eu queria iniciar uma conversa, saber mais sobre a bodega. Mas, me arrependi de ter feito uma pergunta tão sem graça e que na maior parte das vezes, em Portugal e Espanha onde há vinhedos por todo lado, tem uma resposta quase padrão: meu avô fazia vinho, meu pai fazia vinho. Eu decidi fazer vinho também. Ou o vinho sempre fez parte da minha vida. Mas Ramón tinha uma estória um pouco diferente. Ele era cozinheiro, de um restaurante estrelado soube depois, e por isso aproximou-se dos vinhos. Um dia quis mudar de vida. Na equação da transformação da vida entraram os vinhos, voltar a viver em Graena, de onde tinha saído jovem para trabalhar, um pedaço de terra que já possuía e poder lidar e valorizar a natureza para ter bons produtos. O resultado é que passou a fazer vinhos com o que a terra lhe oferecia e lhe ensinava, assim como ofereceu a terra seu trabalho, sua dedicação, seu tempo.

Propôs que continuássemos a conversa degustando seus vinhos, um andar abaixo de onde estávamos, no subsolo, na “ sala de cata”, onde são feitas as degustações. Lá, pegou três taças, algumas garrafas de vinho e acomodou-se atrás de um balcão de madeira. E, não consegui me conter, fiz a segunda pergunta clichê para quem produz vinho natural: o que é vinho natural? Como são elaborados?

Ele respirou fundo e disse que fazer vinho natural era filosofia de vida. E, me surpreendeu, de novo, pois já tinha imaginado uma resposta técnica para a minha pergunta. E continuou: se a terra é mantida saudável, sem química, suas características são preservadas – que nada mais é do que o terroir. E se houver sol e chuva na medida, as videiras produzirão frutos concentrados e saudáveis. Depois de colhidas e maceradas as uvas produzem o mosto, que é colocado em tanques para fermentar com suas leveduras naturais. Sem correções, sem outras leveduras estrangeiras, sem sulfitos. A fermentação é monitorada para que o que se deseja e para o que não se deseja obter. Depois esse líquido vai para a garrafa ou para um estágio em barrica de carvalho. É assim que são feitos os vinhos da Bodega Cauzón. Naturalmente.

E abriu o Mozuelo 2014, 100% garnacha direto dos tanques de inox para as garrafas, disse. Enquanto os primeiros goles de vinho desciam pela boca, Ramón contou como os produtores de vinho natural, como ele, baseiam a sua produção. Cuidam da terra sem química, respeitando-a. Conhecem cada etapa, cada processo para a produção de vinho. Trabalham arando a terra, se for preciso, até. E se há um “culpado” para o vinho, esse alguém é o bodegueiro, o vinicultor.

Mozuelo 2014

Ele estava entusiasmado, didático, explicando os pontos básicos do vinho natural. Mas, a despeito disso, eu o interrompi. Foi mais forte que eu. Eu tinha que lhe relatar a sensação estranha que estava sentindo: parecia não haver resistência do meu corpo ao vinho. Como se não houvesse atrito entre um pneu e a estrada para fazer um carro parar. Uma sensação que nunca havia sentido com os vinhos, por melhores que fossem. E bebi mais um gole. Ramón sorriu e disse. O que você está sentindo é porque não tem química, é natural. Desde 1999 o vinhedo é cuidado sem química. A terra devolveu o bom tratamento, produzindo uvas saudáveis e concentradas. Fez a maior parte da tarefa para produzir um bom vinho, disse.

Bebi o restante da taça. Descartar aquela sensação, nem pensar!

Em seguida, Ramón abriu o Pinot Noir 2014, que passou em barrica. Uma cor surpreendente. Limpo e elegante. Enquanto desfrutava da sensação de deixar meu corpo ao sabor do vinho, Ramón contava do compromisso que os produtores de vinho natural devem ter com o meio ambiente, com o uso de produtos recicláveis: vidro e cortiça, nada mais reciclável. O uso otimizado de água e energia. Coerência é fundamental. E, de novo, não descartei uma gota sequer.Pinot Noir 2014

Ramón abriu o Duende 2014, 100 % Shiraz, que disse, foi elaborado com muito capricho. E deve ter sido mesmo, pois estava fantástico. A sensação de simbiose com o vinho era uma coisa nova, além dos aromas e sabores. E ele contou que vinho natural traz sim essa sensação de aromas e sabores limpos que despertam a língua para aquilo que ainda não foi percebido.

Gostei de despertar a língua!IMG_20160514_151754596

Eu não sabia quais eram as perguntas certas a serem feitas e já tinha feito algumas perguntas óbvias. Mas conversávamos porque ambos estávamos interessados não apenas em relatos, informação, perguntas inteligentes, mas em comunicação: ele queria falar, mas também queria ouvir. Ouvir sobre minhas experiências com o vinho. Sobre o Brasil. Sobre os motivos de viajar para conhecer vinhos. Contou que é um brasileiro que faz o desenho de seus rótulos. E nos mostrou, com brilho nos olhos, vários deles, explicando os desenhos, as ideias por trás dos rótulos. Foi depois do que disse sobre leveduras que entendi porque não se deve usar levedura comercial, estrangeira, nos vinhos naturais – apenas as cascas da própria uva: para garantir o terroir, para que o vinho da serra nevada tenha o sabor, o terroir, da serra nevada e não de algum outro lugar onde uma levedura tenha sido produzida.

E finalmente fui apresentada a questão do sulfito: que nunca deve ser adicionado, nem às uvas antes da serem maceradas, nem ao mosto que produzirá o vinho, nem para limpeza dos equipamentos. E foi enfático: é tóxico. É um veneno. Minha amiga, como tivesse acordada de um transe, o interrompeu para contar de algo que lembrara, uma palestra que assistira, anos antes, sobre o processo para produção de vinho. Naquela palestra, o apresentador, enólogo, mostrava uma foto sua, totalmente protegido, aspergindo alguma coisa em um tanque, para ilustrar a etapa de adição de sulfito ao mosto do vinho. Foi quando ela perguntou: se você precisa dessa roupa para colocar o sulfito, o que deve ser usado para quem vai beber o vinho?  Sua expressão de assustada ao fazer a pergunta provocou risos nos outros participantes, que se atropelavam para dizer que não existe vinho, bom, enfatizaram, sem sulfito; que todo vinho tem sulfito. Ela ficou sem graça. Lembrava da situação, da palestra, mas não lembrava da resposta. E nunca mais perguntou sobre o assunto, com receio de ser ridicularizada.

roupaprotegida

O sulfito é um bactericida que vem sendo utilizado pela indústria vinícola para: evitar a deterioração do vinho, corrigir imperfeições, retardar o amadurecimento da uva – para que não inicie o processo de fermentação antes de chegar a vinícola. O sulfito está presente em vários tipos de alimento: adicionado para conservação em enlatados, por exemplo, ou gerado de forma natural como resultado da fermentação ou da passificação – frutos secos tem sulfito. A legislação de cada país estabelece uma quantidade aceitável de sulfitos por litro de vinho e que varia com o tipo. Entretanto, sua manipulação é considerada tóxica, exigindo a utilização de roupa protetora.

E essa é a grande mudança de paradigma do vinho natural. Não corrigir o vinho com sulfito. O sulfito aceitável no vinho natural é apenas aquele resultante da fermentação das uvas– que produz vários componentes químicos, entre eles o sulfito.

Entre goles do Duende – ele encheu nossos copos de novo, o dele inclusive – contou que há maneiras de proteger o vinhedo sem pesticida. Que a química reduz os riscos pois corrige o vinho para mantê-lo dentro de padrões comerciais.  Que o vinho natural valoriza o terroir, pois expressa o que há na terra. Que vinho natural é orgânico, mas que vinho orgânico nem sempre é natural. E, que no final de tudo, toda garrafa de vinho, natural ou não, continuará a ser uma surpresa, dependendo de como evolui.

A garrafa seguinte foi um Cauzón 2013, 100% tempranillo e que passou 6 meses em barrica. Um vinho que me fez lembrar que não comia há pelo menos 4 horas.

Cauzón 2013

Então, Ramón deu o golpe final e serviu seu Cauzón Blanco 2013. Um corte de sauvignon blanc, viognier e torrontés. O líquido amarelado não era translúcido como os vinhos brancos que conhecia. E antes que perguntasse pela aparência diferente, ele explicou que o vinho natural não deve ser filtrado, clarificado forçadamente – para isso seria necessário química. A clarificação, quando acontece, é natural. Acontece, ao longo do tempo, resultado dos componentes naturais do vinho.

cauzonbanco1

Depois de 4 tintos empolgantes, o vinho branco parecia chegar despretensioso. Mas Ramón conhecia seus vinhos e o efeito sobre as pessoas. Depois de dois grandes goles, não havia mais o que falar. Estava ali o melhor do dia. Com todo o frescor que a tarde quente de Graena pedia. Podia ter perguntado o porque da combinação das uvas no Cauzón Blanco: para ganhar acidez, estrutura, mas preferi ouvir o ABBA cantar Dancing Queen, trilha sonora recorrente que ouço quando estou diante de alguma coisa que valha a pena ser lembrada, como o Cauzón Blanco.

“You can dance, you can jive

Having the time of your life”

Parabéns por seus vinhos, disse. E ele propôs um brinde aos que fazem o que amam.

Olhei o relógio. Já conversávamos há duas horas. A visita estava sendo maravilhosa, mas não parou o tempo. Tinha que voltar para Granada ou perderia a visita noturna à Alhambra, marcada meses antes. Hora de ir embora. Não haveria tempo para ver os vinhedos – 4 hectares na face norte da Sierra Nevada.

ingresso

Enquanto Ramón embalava algumas lembranças engarrafadas para nossa volta ao Brasil – um de cada que provamos, mais um Iradei para completar a caixa, reparei que, em uma das paredes de sua sala de cata, havia cartazes de eventos, salões de vinhos naturais já ocorridos colados displicentemente com fita durex. E lembrei das paredes de meu quarto de adolescente, também repleta de pôsteres de cantores e filmes que amava e que queria manter ao alcance da mão, ali na parede. Sem preocupação estética, os cartazes colados na sala de cata, mostravam o quanto Ramón ainda carregava a alma de um jovem que se apaixona por seus ídolos, pelas ideias, o quanto estava envolvido na filosofia de vinho natural. Muito além de apenas produzir e vender vinhos.Sala de Cata

 

Sala de Cata

 

 

 

 

 

Ao nos despedirmos ele disse que ” Se dice lo que se hace, se hace lo que se dice”  se diz o que se faz, se faz o que.  O derradeiro ponto sobre vinho natural que nos apresentaria: honestidade e transparência. Toda a informação pode ser fornecida para comprovar a autenticidade dos vinhos naturais.

No caminho de volta para Granada, com a Sierra Nevada como cenário e sob o efeito das sensações experimentadas pelos vinhos de Ramón, tudo finalmente fazia sentido.  Tinha entrado no mundo dos vinhos naturais por acaso, mas não foi por acaso que a filosofia por trás da produção de vinhos naturais tinha me encantado, me capturado. Olhando de longe, pode até parecer um protocolo de intenções da ONU para um mundo melhor, mas de perto, é o que cada um de nós pode fazer por aquilo que ama, no caso os vinhos. Além disso, os vinhos naturais podiam ser diferentes, às vezes, mas eram maravilhosos.

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Granada é mais que Alhambra! Com certeza.

 

P.S. A visita à Barranco Oscuro ficou para outra estória.