Beber para esquecer… ou para lembrar!

Danuza cantava “Cheia de charme” com Guilherme Arantes. Ela, na sala de sua casa. Ele, na tela do computador. A coreografia que seu corpo executava era uma espécie de dança do ventre contida. Com essa dancinha esquisita, foi até o armário onde guardava bebidas. De lá, pegou uma garrafa de vodca. E continuou a cantar e dançar, com a garrafa nas mãos.

“Quando a vi, logo ali tão perto…”

No meio de sua cantoria ouviu a campainha tocar três vezes seguidas. Danuza, que não esperava nenhuma visita, apressou-se para desligar o computador e silenciar Guilherme Arantes. Do outro lado uma impaciente Paula gritou:

“Sou eu, Paula.”

danuza_em_susto2Atordoada, Danuza, que ainda estava com a garrafa de vodca na mão, correu para colocá-la de volta no armário, antes de abrir a porta.

“Sua dupla ficou muda?” disse Paula, ao entrar mancando no apartamento de Danuza.

“Dupla?”

“Guilherme Arantes! Ou acha que não ouvi você cantando? Aliás, não precisa pensar em nenhuma desculpa, porque eu não vou perguntar porque você estava ouvindo Guilherme Arantes!”

Danuza ameaçou falar, mas Paula só havia pegado fôlego para continuar.

“E antes que você me pergunte como estou, e a gente consuma da nossa existência uns 5 minutos de conversa fiada, vou ser direta: eu vim em busca de companhia para beber. Eu preciso beber! Tô precisando relaxar… E não estou aberta a sugestões tipo dar uma corrida, por motivos óbvios – e apontou o pé inchado – ou ver uns episódios de Modern Family…”

Paula estava visivelmente irritada. E se largou sobre o sofá. Enquanto se ajeitava em silêncio Danuza aproveitou para transformar o monólogo em conversa.

“Oi para você também…”

Mas o monólogo continuou…

“Meu dia foi terrível! Torci o pé correndo para entrar no elevador do trabalho.  Em seguida, antes que eu bebesse um café, meu chefe, ignorando a transformação de meu pé numa pata de elefante, me pediu para acompanhá-lo numa reunião que começou às 9:00h. A sala, lotada, tinha um único ar condicionado que não fazia nem cócegas no suor que meu corpo teimava em produzir. Às 16:00 horas a reunião terminou. Eu estava com o pé doendo, com fome – é preciso dizer que não houve intervalo para o almoço? – e suada. Resolvi ir embora e peguei um táxi para chegar mais rápido em casa. Faltando uns 500 metros para chegar à minha rua, o táxi parou no sinal, mas o carro que vinha atrás, não.  Que susto! Mas ninguém se machucou. Os motoristas saíram para aquela cena de praxe: olhar o carro, fazer aquela cara de reprovação, trocar telefones. Tudo normal. Mas depois de 15 minutos de discussão resolvi deixar o táxi e seguir andando.”

“Dia cheio…”

“Mas, calma, não acabou! Quando eu achei que nada mais poderia acontecer, vi, na minha rua, o caminhão da companhia de luz. Mais à frente, meu prédio: o único da rua completamente apagado. Não tive coragem de perguntar o que aconteceu ou quando a luz seria restabelecida. Diante dos 17 andares a serem vencidos com 1 pé e meio, eu me rendi. Vim pedir asilo da minha vida. E preciso beber!”

“Terminou? É a minha fala agora? Já entendi! Você quer beber para esquecer o dia de hoje! Não vou tentar lhe convencer do contrário. Aliás…acho que sei o que você precisa: uma vodca que eu ganhei há alguns anos…”

Enquanto Danuza ia em direção ao bar para pegar a vodca que havia acabado de guardar, Paula se levantou e foi mancando até a adega que guardava os vinhos de Danuza. Abriu a porta e pegou um vinho. Parada, com a porta da adega aberta, examinava o rótulo da garrafa.

adega

“Acho que eu prefiro vinho, Paula. Podemos beber um desses…”

Diante do estado de ânimo da amiga, Danuza percebeu que a vodcca ficaria para outro dia. Resignada, concordou.

“Se você prefere vinho, tudo bem, Vou pegar umas taças na cozinha.”

Paula colocou o vinho que estava em suas mãos de volta na adega. Tirou outra garrafa, examinou e devolveu também. Parecia insatisfeita com as garrafas que havia examinado. Então, agachou-se e colocou a mão o mais fundo que pode na adega. Quando Paula voltou, ela estava sorrindo com uma garrafa na mão.

“Olha se não é o destino: escolhi sem ver, um vinho que estava lá no fundo. E o que apareceu? Quinta da Pellada! É a minha cara hoje: pelada diante da realidade. Vulnerável. Exposta. Lembra da estória do homem nu do Fernando Sabino: perseguido, humilhado só porque foi, sem roupa, pegar o jornal na porta de casa…”

Danuza largou as taças em cima da mesa de centro e avançou em direção a Paula.

“Você é um enigma a ser desvendado: não entendi como o seu cérebro juntou Fernando Sabino, Quinta da Pellada e esse seu dia esquecível! Por isso não posso nem discordar! A única coisa que eu tenho para lhe dizer agora é: nem ouse pensar em abrir o Quinta da Pellada! Esse vinho não é para relaxar! Escolhe outro. Tem vinhos ótimos aqui.”

Danuza tirou o vinho das mãos de Paula.

“Caramba! Vinho não é para beber com os amigos? Não é o que dizia o Mário Quintana?”

“É isso que dá ler tudo na diagonal! Ele disse: por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente, aquele que tu bebes calmamente com o teu mais velho e silencioso amigo…. “

“Um dia você ainda vai admitir que decora essas coisas para fingir que tem memória fotográfica?”

“Continuando. Na minha interpretação: qualquer vinho fica maravilhoso quando a gente bebe com um velho amigo. Por isso não precisamos beber o Quinta da Pellada. Como já somos velhas amigas, qualquer vinho serve. Tem tanto vinho na adega. Escolhe outro!”, disse Danuza, já sem paciência.

“Sim, podemos beber outro vinho. Mas agora eu fiquei curiosa: por que eu não posso beber esse vinho? È muito caro, produção limitada?”

“ Não! Nada disso!”

Paula de braços cruzados esperava uma explicação. Danuza relutante, continuou.

“É que eu tenho uma relação, digamos, especial com esse vinho.”

Paula, com raiva, disse:

“E que nunca me contou! Que velha amiga é essa que me esconde seus relacionamentos proibidos? Mais uma para o dia de hoje!”

“Deixa de ser dramática. E quem disse que era um relacionamento proibido? Disse que era especial!”

“Posso até ouvir Mario Quintana com uma nova citação a respeito do vinho: você vai descobrir um amigo falso quando um vinho especial lhe sonegar e uma fofoca antiga não lhe contar. Nessa ordem.”

“Antes de você atormentar a alma do Mario Quintana com mais uma pérola, eu conto. Aliás nunca contei porque não surgiu a oportunidade. Não há nenhuma regra que estabeleça que velhas amigas tem que contar tudo de suas vidas.”

Ela faz uma longa pausa, como quem está refletindo, e resolve contar.

“Bem, a estória é a seguinte; Há alguns anos, estava em Portugal e resolvi visitar a Quinta da Pellada, uma vinícola conceituada no Dão. A viagem de carro já teria valido a visita: poder olhar da janela do carro a Serra da Estrela ao longe emoldurada por um dia ensolarado de primavera me fazia até respirar melhor. Quando cheguei à propriedade, um lugar lindo com um casarão histórico, me senti dentro de um daqueles catálogos de vinhos repletos de fotos. Eu juro: poderia ter voltado dali e mesmo assim teria sido ótimo. Mas segui em frente e fui recebida pelo Álvaro Castro, o dono da Quinta da Pellada. Me tratou, sem nunca ter ouvido falar de mim, como se fôssemos amigos de infância. E olha que minha insignificância no mundo do vinho era, naquela época, a terceira potência do que é hoje. Passamos horas muito agradáveis. O Álvaro, um homem espirituoso, brincalhão e muito à frente do seu tempo, foi quem me disse, pela primeira vez, que não existe certo ou errado na combinação de vinho com comida, porque a língua de cada um é que decide o que vai bem. E uma mesma língua pode ter percepções diferentes ao longo do dia, da semana, da vida.”

Paula, ainda de braços cruzados, demonstrava impaciência.

“Dá para ser um pouquinho mais objetiva? Em que momento a gente vai chegar no vinho?”

“Acompanhei Álvaro e sua filha Maria – que é enóloga e à época estava trabalhando com o pai – pela propriedade.  Era época da vindima… um movimento alegre de pessoas indo e voltando dos vinhedos. E ainda tive a oportunidade de ver o início da produção do vinho. Como você pode ver, mesmo sem provar nenhum vinho, a visita já estava sendo ótima. Quando, finalmente, fomos para a degustação dos vinhos e provei o Quinta da Pellada, uma garrafa igual a essa que você tentou abrir, eu tive a sensação de que fazia parte daquele cenário, daquele universo.  Um vinho maravilhoso! Comprei duas garrafas para trazer para o Brasil.”

“E?”

“Quando abri a primeira garrafa, algum tempo depois, meio nostálgica, fui procurar as fotos da viagem. E, descobri que os cupins haviam destruído as minhas lembranças: as fotos e o filme. É, isso aconteceu há muito tempo, quando não existiam máquinas fotográficas digitais.  Fiquei arrasada! Por isso decidi guardar a outra garrafa de Quinta da Pellada, para o momento em precisar, ou quiser lembrar daquele dia maravilhoso. O vinho certo para ativar aquelas lembranças. Uns goles e viajo sem passaporte para o Dão.  Mas para isso, eu tenho que estar no clima certo, para não desperdiçar nada do que esse vinho pode me oferecer.”

“Uau! Que estória! Me chama para assistir, quando virar filme.”, disse Paula com ironia.

“É por isso que eu não vou abrir esse vinho, porque hoje eu não estou precisando voltar ao Dão.”, disse Danuza decidida.

“Ou não quer…”

“O que eu quero é colocar o Quinta da Pellada de volta na adega.  Escolhe outro vinho. Ou quer que eu escolha?”

“Não! Perdi a vontade de beber vinho! Hoje, pelo menos. Mas não pense que vou esquecer esse Quinta da Pellada. Não mesmo! Mas, por enquanto, vamos voltar à primeira opção: a tal vodca.”

Danuza animada sorriu, pegou a vodca no armário e entregou a Paula.

“Vou pegar uns copos, que essa taças de vinho não combinam com vodca.”

Paula examinou a garrafa, como fez com o vinho.

“Vodca Tufão. Nome sugestivo. E o rótulo  – ela observa antes de continuara a falar – é mimeografado?”

Danuza voltou com os copos da cozinha. Pegou a garrafa das mãos de Paula e examinou o rótulo, cujos detalhes conhecia há muito tempo e fingiu-se surpresa.

“Parece que o rótulo é mimeografado realmente. Ganhei há tanto tempo e nunca tinha notado. Talvez seja uma produção artesanal…”

“Um presente que ganhou e guardou por tanto tempo… É outra bebida para teletransporte, não? Pode me dizer para onde estamos indo?”

Danuza despeja a vodca em dois copos de geleia.

“Para os meus 20 anos de idade. Para um jeans 38.”

“Deixa de ser genérica, que essa Tufão,  guardada por mais  de 30 anos deve ter presenciado algum momento singular da sua vida. Uma vida, anterior ao Quinta da Pellada, com certeza. E que, sabe-se lá porque, você quer reviver com detalhes. Ou então não estaríamos bebendo em copos de geleia.”

Danuza sorriu e assentiu que sim. E, então, brindaram com seus copos de geleia. E cantaram Cheias de Charme juntas com Guilherme Arantes. Elas, na sala. Ele, no computador.

A paisagem através de uma taça de vinho

Se alguém me perguntasse, naquele dia, o que significava viajar, eu teria dito: viajar é engordar. Porque, em Portugal, comer e beber não era uma opção: era uma oportunidade que acontecia mais vezes que a minha necessidade de comer ou beber.  Era o preço para entrar no cenário e apreciar a paisagem de um referencial privilegiado: a mesa.

A viagem a Portugal já estava por terminar. Em breve eu e minha amiga estaríamos de volta ao Brasil. De volta às nossas roupas. De volta à balança do banheiro.

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Aquela lembranças e a bermuda que me apertava a cintura resgataram de minha memória um folheto de propaganda que vira no saguão do hotel: um passeio de caiaque pelas águas calmas do rio Degebe, perto de Évora, onde estávamos. Era o que eu precisava naquele momento: turismo contemplativo – sem comida ou bebida – com exercício.

Ou, pelo menos, uma tentativa de fazer meu corpo consumir a energia acumulada na viagem por Portugal, conhecendo-o, a partir de um referencial diferente… da mesa, das igrejas, das garrafas de vinho.

Com o passeio agendado, eu e minha amiga rimos ao constatarmos que nunca tínhamos andado de caiaque.

No dia e hora marcados, embarcamos num jipe com nosso guia Luís, um português falante e simpático, em direção ao rio Degebe.
Quando cheguei, fiquei feliz com o programa diferente. A paisagem do Alentejo, vista da margem de um rio, numa manhã de sol, valeu pelos os quilômetros de estrada de terra percorridos num jipe sacolejante.

 

Na beira do rio, de onde iniciaríamos o passeio, Luís, apresentou o formato do passeio: eu e minha amiga utilizaríamos um caiaque duplo e ele iria num caiaque individual, nos guiando pelo rio durante duas horas, tempo que estimava para que fôssemos e voltássemos do local onde se fazia uma parada para descanso. Nos apresentou o caiaque duplo e os remos. E deu as instruções para manobrá-lo de um modo geral e também como uma dupla.

Remar cadenciado, remar do lado contrário para mudar a direção, quem dá a direção é o da popa …

Quando Luís terminou seu briefing, corri em direção ao caiaque e me posicionei na popa, para garantir que seria a comandante da embarcação. Minha amiga, sem opção, entrou em seguida na proa.

 

Navegamos com calma, como parte daquele local bucólico e calmo, observando a natureza, os peixes, as aves, o horizonte, as vacas que pastavam na margem…

 

Essa era a proposta do passeio, descrita no folheto de propaganda. Era isso que deveria ter sentido durante o passeio de caiaque! Mas, no lugar dessas sensações edificantes, remei, remamos por quatro horas. Em círculos, em zigue-zague, às vezes em linha reta. Encalhamos em pedras, em montes de areia, nas margens do rio. Ficamos presas em galhos de árvore. Quase perdi meus óculos e nos molhamos, muito. Descobri que não é possível frear um caiaque. Troquei de lugar duas vezes, da proa para a popa, porque minha amiga creditava os erros de nossa “navegação”  ao meu comando na popa. E discutimos por cada movimento errado, por cada pingo de água que caiu dentro do caiaque, por todas as vezes que ignorávamos a existência uma da outra.  Luís, do seu caiaque, de uma distância segura, indicava os pontos a serem observados no passeio e não interferiu na condução do caiaque duplo.

Quando voltei à terra firme estava exausta, molhada e com a sensação de ter desperdiçado todos os meus sentidos durante o passeio, apenas remando. E, pelo olhar de ódio que minha amiga me lançou, além da paisagem durante o passeio, perdi a amiga também.

 

Enquanto trocávamos as roupas molhadas protegidas pelo jipe e observadas pelas centenas de vacas que pastavam – uma narrativa que não cabe nessa estória, Luís havia montado uma mesa com pão, presunto, queijos e vinho.

Uma surpresa para as nossas remadoras. Tudo do Alentejo. Presunto de porco preto, pão alentejano caseiro, queijo de leite de ovelha e vinho. – disse Luís.

O cansaço abriu meu apetite de tal maneira que não foi preciso insistir:  me rendi à surpresinha de Luís. Minha amiga, do lado oposto da mesa, também se rendeu. Em Portugal, contemplação tem comida!

Iniciamos nosso lanchinho em silêncio, que era o melhor a não dizer, depois do passeio estressante. O silêncio era melhor do que as discussões que tivéramos enquanto remávamos.

Alguns goles de vinho mais tarde, com a raiva abrandada, já conversávamos… sobre o passeio, a beleza do lugar, o programa diferente.

Meia garrafa consumida e já riamos de nossos desacertos ao remar em dupla.

Luís, então, me perguntou o que tinha achado do passeio. Cercada pelas vaquinhas e olhando a garrafa do Vila Gamas tinto, um regional Alentejano simples e honesto, que Luís nos servia, soltei, sem filtro, o que me veio à mente:

Logo que saí do caiaque, se tivesse que resumir o passeio em uma frase diria que: remar e passear são verbos que não combinam. Mas agora, alguns goles de vinho depois, passear de caiaque no rio Degebe foi um dos melhores passeios que fiz em Portugal. As terras de Pêra Manca produzem vinhos concentrados de boas lembranças do Alentejo. Quando bebido, elimina lembranças desagradáveis. Só deixa as imagens e os sabores de Portugal na memória.

Luís sorriu e ergueu seu copo de refrigerante num brinde.

Então meninas, ainda amigas?

Sim. Desde que não falte vinho! – disse minha amiga enquanto acertava sua taça na minha.

E brindando, pensei: desde que sejamos sempre meninas.

Buçaco Tinto Reservado 1992

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Quando: Dezembro de 1999. Um mês para o temido bug do milênio: uma espécie de fim do mundo para computadores e sistemas que utilizavam, para representar datas, o ano com dois dígitos -12/03/45, considerando que todos os anos são do século XX. O problema surgiu com a sobrevida desses sistemas que, acreditava-se, no ano 2000, já não estariam mais em funcionamento – no dia primeiro de janeiro de 2000, esses sistemas entenderiam que a data seria 01/01/00, gerando todo o tipo de problema que envolvesse data: faturamento, juros, rendimento etc. Um caos anunciado, mas que tinha solução: corrigir tudo relacionado às datas e testar antes que o ano 2000 aportasse, tarefa que a equipe de informática, da qual fazia parte, concluiu no primeiro dia de dezembro de 1999. Era hora de comemorar, disse o chefe de equipe que materializou, sabe-se lá de onde, uma garrafa de vinho tinto, rapidamente aberta e servida em copos descartáveis. Não lembro do nome do vinho. Ficou na memória apenas a sensação desagradável de beber, de uma vez, o copo de vinho morno. Um sacrifício para valer o brinde e não desagradar o chefe. E, principalmente, para o sofrimento ser rápido. Meus encontros com o vinho, excetuando-se o tempero para o pernil de Natal, provocavam mais questionamentos que prazer:

  • rascante é qualidade ou parte de um procedimento para deixar minha língua áspera como a de um lagarto?
  • vinho provoca dor de cabeça instantânea?
  • é acompanhamento ou enfrentamento? – o vinho brigava tão ferozmente com a comida, que às vezes tinha que parar de comer.
  • porque dizem que as mulheres adoram o vinho das garrafas azuis?

Feliz com o resultado e talvez com o vinho, o chefe me concedeu as tão sonhadas férias. Era a oportunidade para conhecer Portugal;

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Cenário: Mealhada, Portugal. Situação: eu e meu marido, sentados à mesa do restaurante, entorpecidos após a degustação de um Leitão à Bairrada, acompanhado de algumas taças de vinho. Decisão: abandonar a ideia de seguir viagem até a Cidade do Porto. Dúvida: onde poderíamos pernoitar. Resolução: algum hotel perto de onde estávamos, subindo para os lados da Mata do Bussaco, depois de uma consulta à garçonete.

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Estória: Com as indicações, chegamos a uma estradinha que subia sinuosamente em meio a um arvoredo fechado. Fomos seguindo, meio indecisos, pois não encontrávamos nenhum hotel. Até que a estrada acabou numa espécie de platô, onde estavam estacionados alguns carros. Havia um castelo nesse local, que parecia flutuar, iluminado, sobre a neblina. O que quer que fosse, valeria a pena conhecer. Estacionamos e entramos por uma porta que estava aberta e iluminada. Era a recepção de um hotel! O Bussaco Palace Hotel, um antigo Palácio de caça na serra do Luso, mais precisamente na Mata Nacional do Bussaco. De onde estávamos era possível ver parte dos salões e até uma armadura dourada, da qual destacavam-se dois olhos vermelho-vivos, que pareciam tomar conta da escada que levava ao segundo andar. Ficamos encantados. E talvez por isso, sem perguntar preço, decidimos que era ali que deveríamos passar a noite. Bastava, para isso, que houvesse um quarto livre. E havia!

Assim foi, sem reserva, sem planejamento ou qualquer informação antecipada, que chegamos ao Bussaco Palace Hotel, que foi o último palácio dos Reis de Portugal, transformado em hotel em 1917, considerado um dos mais belos hotéis do mundo.

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Acomodados e depois de um repouso exigido pelo farto almoço, decidimos descer para o restaurante do hotel. Mais para circular pelo lindíssimo salão de jantar do que para saciar a fome: o leitão à bairrada do almoço ainda era uma memória bastante viva. Pelo menos para mim.

Já sentados, depois de folhear o cardápio, disse à garçonete: “O que vocês tem para quem não está com fome? Acho que comi demais no almoço!” Ela, de um jeito que só os portugueses raciocinam, me disse, dura e cordialmente, “Aqui só temos pratos para quem tem fome!”. Sem graça, pedi um consomè de legumes e uma coca-cola. Meu marido, para meu espanto, pediu leitão à Bairrada, de novo. Pedidos feitos, chegou à nossa mesa o escanção – soubemos o nome depois, é claro – com a carta de vinhos. Um instrumento quase inútil para pessoas, como nós, que não conheciam nada de vinhos. Depois de olhar a carta de vinhos por precisamente três segundos, meu marido pediu uma sugestão ao escanção: “Queria beber um vinho típico da região do Bussaco”.

O escanção, visivelmente entusiasmado, disse-lhe que deveria aproveitar a oportunidade para beber um Buçaco, pois eram vinhos elaborados exclusivamente para consumo no hotel, que já encantaram reis, rainhas, chefes de estado, que vinham ao hotel somente para bebê-lo, pois eram vendidos somente no hotel. Ato contínuo, abriu a carta de vinhos e, depois de algum tempo e debate com meu marido, sugeriu um Buçaco Tinto 1992. Meu marido, tomado pelo espírito de algum nobre português, sequer quis olhar o preço do vinho. E concordou com a sugestão. Quando o escanção saiu para buscar o vinho, fui conferir seu preço. “O de 1993 é mais barato”, disse. Ele ignorou meu comentário, fingindo que olhava o salão.

Durante o jantar meu marido bebia o vinho com prazer incomum – ele geralmente parava na segunda taça – me oferecendo para prová-lo a cada gole que bebia. “Esse vinho é muito bom! Você deveria provar.” Tenho que admitir que os vinhos que até então bebera em Portugal eram bons. Mas, nada que tenha me entusiasmado para beber mais de uma taça. Me mantinha fiel à coca-cola, mas sua insistência e seu deleite estavam me deixando curiosa.

E para meu espanto, o garçom serviu o que restava da garrafa, pouco mais que um gole. Meu marido estava prestes a beber uma garrafa inteira de vinho! Alguma coisa diferente estava acontecendo. E eu não queria ficar de fora. Olhei para os lados em busca da garçonete: ela não estava no salão. Respirei aliviada: não queria ser vista bebendo vinho depois que disse “Vinho? Nem pensar!”

Peguei a taça e bebi o último gole de Buçaco.

A mudança: O vinho era diferente de tudo o que já tinha bebido com o rótulo de vinho. Parecia uma lembrança do futuro. Envolveu minha boca e aqueceu meu coração. Um cheiro – eu não chamava de aroma – magnético, se é que pode ser magnético: eu queria ficar com o nariz dentro da taça aproveitando o restinho que não dava para beber. Produziu uma fome instantânea de algo que ainda não tinha comido. E eu nem estava com fome! Tentei falar, dizer o que estava sentindo, mas eram tantas novas palavras conectando-se em minha mente que não consegui construir uma frase. Sensações novas que não tinham sido nomeadas dentro de mim. Eu só sorria. Era a primeira vez que um vinho me fazia pensar. Não só pensar em como foi elaborado: os vinhedos, as uvas, o processo. Pensar no motivo de ser tão diferente de tudo o que já bebi com o rótulo de vinho. Pensar em como me fez gostar de Portugal. Pensar nas pessoas por trás daquelas garrafas, o que fazem, no que acreditam. Pensar em outro momento para bebê-lo novamente. Pensar no que está no entorno daquele vinho. O hotel, seus funcionários, a mata do Bussaco, Coimbra. Mealhada. Os leitões. Pensar na garçonete. Imaginá-la rindo de mim achando que iria resistir aos vinhos do Buçaco. Pensar em cada gole de vinho não bebido. E eu nem sabia que os vinhos do Buçaco são ícones de Portugal, raros, venerados e capazes de durar muitas décadas.

Como num passe de mágica, eu me descobri encantada com vinhos. Apaguei de minha mente as experiências ruins. Minha estória com vinhos começava bebendo um gole roubado de Buçaco tinto.

Conclusão: Ficamos mais um dia no hotel, para conhecer um pouco sobre os vinhos do Buçaco: são vinhos produzidos pelo hotel para consumo de seus hóspedes. Uma decisão de Alexandre de Almeida, o dono do hotel, no início do século XX, para diferenciá-lo, como ocorria em outros hotéis de luxo na Itália e França. Sua produção é realizada de modo tradicional, em lagares abertos, pisa a pé, com uvas da família do proprietário do hotel, no sopé da Serra do Bussaco, e de uvas compradas de outros produtores na Bairrada e no Dão. Na adega, que fica no próprio hotel, há vinhos da década de 20.

Caminhamos pelas trilhas em volta do hotel, na mata do Bussaco. Admiramos Coimbra, pequena, da Porta de Coimbra, uma das saídas do hotel. E, é claro, bebemos uma garrafa de Buçaco. Dividida em partes iguais com meu marido durante o almoço. E viajamos, sentados à mesa, pensando em tudo o que havíamos aprendido naquela manhã.

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Ao deixar o hotel, percebi que os vinhos do Buçaco engarrafavam vidas e estórias de um Portugal que sequer imaginava existir. Depois do primeiro Buçaco, deixo que os vinhos me guiem, deixo que mostrem por onde seguir.

Em 2013, voltei ao Palace Hotel Bussaco. No restaurante, a mesma garçonete que me atendeu em 1999.

 

P.S. Não é falha de memória. Só os vinhos são escritos com ç. A mata e o hotel são escritos com ss.