Vinhos do Peru: conhecendo Pepe Moquillaza, um narrador de histórias líquidas

Os vinhos me guiam, me indicam por onde seguir para conhecer lugares, pessoas, histórias, cidades e, é claro, vinhos. Gosto de conversar em torno do vinho. Mas, se o vinho é apenas um pretexto para conversar, é ainda melhor.

A motivação

Foi num sábado, na iminência de preparar a caipirinha que acompanharia a feijoada que seria servida no almoço, já com os limões galegos na mão, que me deparei com o bar carente de cachaça. Também não havia vodca ou rum, substitutos usuais para misturar com os limões. Tentando buscar uma solução que não fosse a clássica “se não há solução, o problema está solucionado: sem solução” – e sem caipirinha – notei uma embalagem esquecida no bar como um enfeite, um presente que já não lembro quem deu. A caixa dizia Pisco. E que não estava disfarçado de índio INCA, como aquelas garrafinhas que os amigos, que visitaram Machu Picchu, trouxeram como lembrança.

pisco_reservado1-1Curiosa, tirei o pisco da embalagem. E, surpresa, constatei que o líquido era transparente como a cachaça, a vodca, o que seria já meio caminho para se parecer com uma caipirinha. Misturei os limões macerados no pilão, com gelo, açúcar e uma dose generosa de Pisco. Na aparência era uma caipirinha. Mas na boca não parecia uma caipirinha, nem uma caipiroska tão pouco. Mas, para quem não conhecia pisco, o resultado ficou muito bom. Dei outro gole. O Pisco parecia ter suavizado os limões galegos. O álcool, que definitivamente estava presente, pois o rótulo da garrafa ostentava 48 graus GL, não se exibia e parecia tornar a bebida mais doce do que a quantidade de açúcar que eu havia colocado. E sim, o que me intrigava era que eu sentia no nariz um aroma que me lembrava vinho. E tudo que lembra vinho me atrai –  os vinhos me guiam, como eu já mencionei. O aroma de vinho não seria surpresa se eu soubesse que o Pisco é elaborado a partir do mosto de uvas, como o vinho! Coloquei a jarra da caipirinha de Pisco no bar e fui pilotar meu smartphone. Já havia passado da hora de saber mais sobre o Pisco.

Pisco é um destilado de mosto de uvas, que também é a base para a produção de vinho. Foram os espanhóis que trouxeram as videiras para a América recém conquistada, para produzir vinho e assim dotá-la de artigos que estavam habituados a consumir na Espanha. E foi no Peru onde isso aconteceu primeiro. As condições favoráveis do solo e do clima permitiram produzir muito vinho, o que transformou o Peru no principal produtor de vinhos da América nos séculos XVI e XVII. Era tanto vinho que resolveram destilar parte do mosto produzido no Peru. Esse destilado era exportado pelo Porto de Pisco, daí o nome Pisco. O Peru não é hoje um país reconhecido pela sua produção de vinhos como são, por exemplo, o Chile e a Argentina, porque vários fatores ao longo dos séculos – terremotos, proibições de exportação, pragas, guerras – levaram à diminuição da cultura das videiras. Somente no século XX, o incentivo à produção de Pisco, como um produto típico peruano, acabou por aumentar e melhorar a produção de vinho.

Larguei o smartphone. Bebi mais uns goles da mistura de Pisco e limão. Olhei a garrafa de Pisco e, finalmente, entendi que, mais uma vez, tudo havia sido engendrado no universo paralelo onde os vinhos me orientam por onde seguir. Descobrir o Pisco, um destilado nascido como nascem os vinhos, do mosto de uvas, há tanto tempo esquecido no bar, me fez enxergar os vinhos do Peru!vinhoperu

Esbarrando no Peru de novo

No final de semana seguinte, numa festa, o tema vinhos surgiu na conversa com pessoas que acabara de conhecer. Aproveitei para contar a história do Pisco, da minha ignorância sobre o assunto e que, sim, há vinhos no Peru. Foi quando uma dessas pessoas, interagindo com o assunto recém lançado à roda, disse que seu pai era peruano e por isso já conhecia os vinhos do Peru, onde vai com frequência para rever parentes. A partir daí, a conversa enveredou para o Peru. Falamos de vinho, das belezas do país, do povo, da comida, de Pisco, dos chefs famosos. E concluímos que o Peru é muito mais que Machu Picchu.

Coincidência, o assunto dos vinhos do Peru ter surgido duas vezes em uma semana? Só se eu não acreditasse que os vinhos me guiam.

Destino: Peru

Eu tinha que conhecer os vinhos do Peru! Já estava convencida! O que eu tinha que fazer, depois daquela decisão, era descobrir para onde ir, o que ver, o que e quem conhecer. Sem nunca ter ouvido falar de vinhos do Peru, a web não era o caminho mais fácil, mas parecia ser o único caminho que poderia me levar aos meus desejos. Soprei no ouvido do meu guru Google minhas palavras de ordem para encontrar os vinhos naturais peruanos, minha já não tão nova paixão: vinhos naturais, Peru, orgânico, biodinâmico, artesanal, típico, leveduras indígenas. Com o que o Google me devolvia, fiz outras combinações: América, rotas de vinho, uvas criollas, leveduras indígenas, uvas pisqueras. E assim, fui encadeando minha mente com a engine do Google. Depois de algum tempo de pesquisa, meio desapontada, concluí que a maior parte da informação que obtive não me interessava: grandes bodegas, indústrias de vinho, vinhos de castas francesas, italianas, produtores europeus. O que me interessava, o vinho natural, o vinho típico peruano, reduziu-se, depois de muita pesquisa a um nome: Pepe Moquillaza.

Se Pepe Moquillaza era o caminho e o meu destino no Peru, era preciso descobrir quem era esse produtor. Para saber o que seria possível conhecer e como fazer contato.98595

Quem é Pepe Moquillaza?

Pepe Moquillaza é figura conhecida no Peru. É embaixador do Peru para o Pisco. Por conta de um ano sabático – precisava distanciar-se por um tempo dos assuntos com que lidava num alto cargo público – decidiu levar adiante o sonho de fazer seu próprio Pisco, como já havia visto produtores artesanais fabricarem na sua Ica natal. E o ano sabático se transformou no seu projeto de vida, pois vem fazendo o Pisco Inquebrantable desde 2003, reconhecido como um dos melhores do Peru. O sucesso de sua empreitada, o levou a acreditar que as uvas pisqueras não poderiam ser limitadas ao pisco, pois, na época das colônias, eram a base da produção de vinho também. Foi assim que surgiu o Pepe produtor de vinhos naturais, pois os elabora como o pisco, de modo artesanal, sem intervenções, com fermentação natural. Uau! Que história.

Porque conhecer Pepe Moquillaza?      

A oportunidade de conhecer vinhos que expressassem a tipicidade do Peru, como os que Pepe Moquillaza produzia, seria um bom motivo para ir ao Peru.

Conhecer Pepe Moquillaza, depois de saber sua história, seria um ótimo motivo para ir ao Peru.

Mas conhecer um narrador de histórias líquidas, como Pepe Moquillaza se definiu em sua página no facebook, tornava imprescindível a viagem ao Peru, Eu precisava conhecer o homem que definiu com poucas palavras seu papel no mundo do vinho. E, de quebra, me fez entender o meu papel no mundo do vinho: sou uma ouvinte dessas histórias líquidas que produtores, como Pepe, contam.

Decidi mandar um e-mail para Pepe Moquillaza me apresentando como uma apaixonada pelos vinhos naturais, que gostaria de conhecer seus vinhos. Ele, gentil, rapidamente concordou!

Convidei a amiga de todos os vinhos para conhecer o Peru de Pepe Moquillaza. Contei tudo, desde o Pisco na estante de casa. No fim, mais uma ansiosa por conhecer o narrador de histórias líquidas.

No Peru, Lima

Chegamos eu e minha amiga em Lima já tarde da noite. O motorista do táxi seguiu pela via costeira. O mar, distante poucos metros, parecia não estar lá, escondido pela neblina densa, que envolve Lima boa parte do ano. Pepe Moquillaza, no dia seguinte, ao vivo e a cores, deu algumas sugestões de onde comer e do que fazer até que nos encontrássemos à noite no La Gastrónoma, quando, livre de seus afazeres, nos apresentaria seus vinhos.

As sugestões de Pepe: para entrar no clima do Peru

Fomos, eu minha amiga, andando por Miraflores até o Costanera 700, a sugestão de Pepe para o almoço, um restaurante onde as gastronomias peruana e japonesa se fundem. É assim que está descrito no site do restaurante. E é exatamente isso que encontramos no cardápio, que olhamos por curiosidade, porque pedimos o que Pepe nos sugeriu: ceviche costanera, causa pulpo, batayaki de lagostins e Pisco Sour, com Pisco Três Generaciones. Pedimos, mesmo sem saber exatamente o que era causa e batayaki! Mas as sugestões de Pepe foram maravilhosas: tudo leve, fresco, delicioso e… perfeito com o Pisco Sour. Ah, o batayaki é um tipo de cozimento à base de manteiga e alho, servido na chapa quente e a causa era um escondidinho de batata.

 

Depois desse começo, aclimatadas ao Peru, saímos para caminhar pela orla de Miraflores, repleta de lindos parques e malecons. Fomos até a Ponte dos Suspiros em Barranco. Um lugar que merecia mais tempo para ser explorado, não fosse o iminente encontro com Pepe.

La Gastrónoma ou o primeiro encontro com os vinhos e Pepe

Depois de um dia caminhando por Miraflores, achávamos que conhecíamos a cidade. A La Gastrónoma ficava na Calle Libertad 439.

“Fácil chegar lá: a rua começa na Avenida José Pardo, por onde passamos duas vezes hoje.” – disse minha amiga, confiante.

Saí do hotel, seguindo minha amiga, em direção à Calle Libertad. Depois de percorrê-la duas vezes sem encontrar o número 439, impaciente, saquei meu smartphone, acionei o Google Maps e descobri que o número que procurávamos ficava num trecho da Calle Libertad que fazia um ”desvio” depois que, aparentemente, acabava.

“Eu encontrei a Calle Libertad. Não tenho culpa, se tem um pedaço dela que se esconde.” – disse minha amiga – não admitindo sua derrota para o aplicativo.

Quando chegamos, Pepe nos esperava na varanda do La Gastrónoma, que é uma loja o

nde pode-se encontrar produtos orgânicos e típicos do Peru: vinhos naturais, pães de fermentação natural, cafés, chocolates, cervejas, queijos artesanais e comidinhas para petiscar. E, é claro, os vinhos que Pepe Moquillaza produz. Naquele ambiente agradável, confortavelmente acomodados, contamos a nossa história e o que soubemos da história dele pela internet.

Os vinhos de Pepe

Tudo começou com o Pisco. Pepe é de Ica, região onde é produzida a maior parte do pisco no Peru e onde está localizado o distrito de Pisco. Naquela região, é natural que o Pisco faça parte da vida das pessoas: na mesa, produzindo, degustando, conversando. Como muitos iquenhos, Pepe sempre sonhou em produzir seu próprio pisco. Quando surgiu a necessidade de parar por um ano –o ano sabático, ao deixar um alto cargo público – resolveu produzir seu Pisco de quebranta, o Inquebrantable, para resgatar a tradição da produção de Pisco e valorizar a uva quebranta. Porque a quebranta? Simples: é uma variedade que sofreu uma mutação – de negra criolla e negra mole, trazidas na época em que o Peru era ainda uma colônia – para se adaptar ao terroir desértico de Ica, ou seja, uma uva autóctone do Peru. Uma uva resistente: resistiu à filoxera e vem sendo utilizada como porta-enxerto, além de produzir em pé franco. Era a uva para produção de vinho e Pisco, à época da colônia. Então, se é para resgatar a tradição, a essência do Peru, deve-se utilizar a quebranta, argumentou Pepe.

Com técnica – colheita manual, fermentação natural e longa, botijas de argila – foi possível mostrar o potencial da quebranta, para ele, a rainha das uvas no Peru. O ano sabático acabou, mas a produção do Inquebrantable continuou, e transformou-se na sua principal atividade.

Pepe é hoje um produtor consagrado de Pisco. O Inquebrantable está presente nos melhores restaurantes do mundo: Can Roca, em Barcelona e, ali no Peru, no Central de Virgílio Martinez. Nos seus Inquebratable, está engarrafada a essência do Peru.

E os vinhos? Quando começou a pensar neles?

“Porque não se fazem vinhos, como se faziam na época das colônias? Porque não se fazem vinhos de uvas coloniais? Porque não se pode fazer vinho de quebranta, por exemplo? “

Sua resposta a essas perguntas foi ação: produção de vinho de quebranta.

Mas conversar com vinho seria muito melhor. Estávamos no La Gastrónoma para isso. Para conversar com Pepe em torno dos vinhos que faz com seu sócio Camilo Quintana, na Bodega El Quintanar, em San Juan de Ihuanco, Cerro Azul, província de Cañete. Um desdobramento da parceria para produção do pisco Inquebrantable, desde 2003.

O primeiro vinho que nos apresentou foi o Albita, um vinho laranja, resultado de um corte de duas uvas pisqueras; Albilla e Itália. Pepe explicou que para domar as uvas pisqueras e fazer um vinho laranja, fez a colheita antes que amadurecessem completamente. Com isso, teriam mais acidez. Com essas uvas, fez maceração carbônica. Para a cor laranja, deixou as cascas em contato com o mosto por 60 dias e depois foram para as botijas de argila.

Com o Albita nas taças e a garrafa circulando por nossas mãos, para conferir os rótulos, tirar fotos, sentimos o vinho e bebemos nosso primeiro gole. Enquanto Pepe analisava seu vinho, eu me preparava para dizer que nem sempre encontro as palavras certas para expressar o que estou sentindo, mas ali era fácil perceber a fruta, o aroma doce da passa. O que poderia parecer oxidado, caía bem.  O vinho estava perfeito para a noite singular que se iniciava. Contei que no ano passado, quando estive em Mendoza, os vinhos laranja dos Michelini me deixaram fascinada e que virei fã: dos laranja e dos Michelini. E que o vinho de Pepe também me dava essa sensação. Foi quando ele contou que tem um projeto com Matías Michelini, que juntos produzem vinho no Peru e aguardente de vinho em Mendoza. Ambos com a marca MIMO, de Michelini e Moquillaza.

De novo, não era coincidência. São os vinhos que me guiam…

E o Albita foi conduzindo a conversa, permitindo desencavar “Pantaleão e as Visitadoras”, filme que me apresentou o Peru e que me transformou numa leitora de Mario Vargas Llosa.  Pepe disse, então, que o ator principal do filme agora é ministro da cultura! Procuramos sua foto na web. E concordamos que envelheceu bem.

Entremeado com queijos artesanais peruanos, de cabra, de vaca, de leite cru, a garrafa de Albita foi se esvaziando, alavancando a conversa, ora como protagonista, ora como coadjuvante, trazendo assuntos que só se consegue associar a um vinho singular como o Albita.

Quando a garrafa se esvaziou, ficamos tentadas a repetir a dose, mas Pepe queria que provássemos seu Quebrada de Ihuanco, que é o primeiro vinho que elaborou.

Enquanto o vinho era aberto, Pepe contou que nem tudo para a quebranta era sucesso, na produção de vinhos. Os tintos de quebranta tinham pouca cor, pouco corpo, pouco aroma. Não eram o que se esperava de um vinho tinto.

O problema não era do potencial da quebranta. O problema era enxergá-la e vinificá-la como uma uva tinta, quando é uma uva gris! Seus vinhos não poderiam ser tintos, e não estavam aquém do que se poderia obter, mas como um clarete, refletiam em cor e aromas a essência da uva, de Ica, do Peru. Com esse novo olhar – vinhos que refletiam a essência do Peru – percebeu-se que seria possível escoltar a alta gastronomia peruana, que também busca a essência do Peru. Uma visão surpreendente, que encantou chefs de restaurantes, como o Central de Virgílio Martinez, que praticam essa alta gastronomia.

Mas era hora de provar o Quebrada de Ihuanco. A garrafa que estava à mesa era de 2013, de uvas de pé franco. Um vinho fresco, com um aroma de mel que ficava na boca. Delicioso. Pepe ressaltou que o casamento com a alta gastronomia peruana acontecia, porque seus vinhos não lhe tapam. Gostei do verbo. Tapar. Seus vinhos deixam que a comida se exiba! São acompanhantes que só fazem destacar as sutilezas desse tipo de gastronomia.

Pepe diz que todo vinho conta uma história. O Quebrada de Ihuanco vai contar durante muito tempo a história de uma uva criolla que saiu de Ica para as mesas de restaurantes estrelados.

 

 

Entre goles de Quebrada de Ihuanco, fomos ficando cada vez mais encantadas com a visão de Pepe para o mundo do vinho e do pisco e de como podem ser atividades sustentáveis para a população peruana.

A noite terminou com esses dois vinhos. Combinamos de provar os vinhos que Pepe elabora com Matías Michelini, os MIMO, em Ica, na hacienda onde são produzidos.

Dali saímos andando por Miraflores. Apreciando o movimento das pessoas. Pepe fez questão que provássemos o sorvete de lúcuma, fruta típica de Ica. Valeu a pena!

 

A Viagem para Ica

“Você não acha que está levando muita coisa para ficar apenas uma noite em Ica?, disse para minha amiga enquanto preparava sua mala para a viagem à Ica

“Nunca se sabe!”

“Mas porque você vai levar um canivete?”

“Podemos precisar.”

“Em que situação exatamente?”

“Descascar uma fruta…”

“Nós vamos de carro até Ica e lá vamos nos hospedar num hotel. Já considerou nesse contexto a necessidade de um canivete?”

“O carro pode enguiçar. Podemos ficar na estrada sem comunicação. Sem ter o que comer, teremos que nos alimentar de frutas que encontrarmos na mata.”

De carro, fomos deixando o trânsito pesado de Lima, cortando pela Panamericana Sur, uma cidade diferente daquela que havíamos percorrido nos últimos dias. Ao lado da estrada, enquadradas pela janela do carro, mimetizadas à montanha de areia marrom, casas simples de madeira espalhavam-se até desparecem na neblina de Lima.

Seguimos. Ao longo da estrada tranquila, as montanhas de areia foram ficando menos habitadas. E o céu, cada vez mais limpo.

Primeira parada

 

Paramos para comer pão de lenha. Um com manteiga, outro com azeitonas pretas e café.

Simples, frescos, quentes e comidos com prazer.

No caminho, plantações de mandioca. Criação de galinhas. O mar longe. Areia. E um sol que dá a Pepe a certeza que já está em Ica.

Segunda parada

Chegamos a Pisco, epicentro de um terremoto, que há dez anos destruiu parte de uma cidade, que está intacta na memória de Pepe. Ele vai mostrando o que já não está lá, as construções retas, parecendo caixotes, que deram lugar aos casarios coloniais e os lugares onde a reconstrução ainda acontece.

 

 

 

Nosso destino –  para o almoço – era o restaurante As de Oro’s.

Lá, o pescado fresco é a grande atração.

Comemos ceviche, choclos, ostras. Foi lá que bebi minha primeira chicha, bebida de milho vermelho com canela, típica do Peru. Tudo fresco e saboroso. Levíssimos, voltamos para a estrada.

 

Terceira parada

No porto de Pisco, os piscos, como são chamadas as aves em quéchua, a língua dos antigos habitantes do Peru, não decepcionaram. Ainda voam por ali para contar que é daquele porto que saía a aguardente de vinho que em sua homenagem virou Pisco.

 Quarta Parada

Seguimos até Paracas. Pepe queria que bebêssemos um Pisco Sour em Pisco. Escolheu um lugar on

de a preparação fosse tradicional, o Hotel Paracas, na costa do Pacífico Sul.

 

 

 

Observamos o barmen preparar o coquetel: limão, pisco, clara de ovo, açúcar e um amarguinho. Minha amiga vidrada no liquido que ele despejou no copo admitiu que estava apaixonada pelo Pisco Sour. O coquetel estava perfeito!

 

 

 

 

No caminho, uma botija de argila meio enterrada na beira do mar. Um adereço quase cenógrafico para lembrar dos métodos de fermentação de pisco.

 

Quinta parada

Chegamos ao hotel El Carmelo, onde nos hospedaríamos. Uma antiga hacienda onde também se produz pisco. Na hora que chegamos acontecia uma festa para promover o Pisco entre representantes de turismo de alguns países da América. E nem é preciso dizer que havia muito pisco, pisco sour, chilcano, música e dança. Ficamos um pouco, mas ainda haveria uma última parada naquela noite.

 

Sexta parada

Do hotel fomos para o Oásis de Huacachina, Lá no meio de toda aquela areia há um lago cercado de árvores. Em volta restaurantes, hotéis. Andamos sem pressa aproveitando a noite.

 

O dia tinha sido maravilhoso. Mas, de volta ao hotel, eu só queria tomar um banho e dormir. Minha amiga, animada, queria ir para a festa do pisco que acontecia no hotel.

”Deixa de ser desanimada: não combina com nossa road trip Louise” – ela disse, numa alusão ao filme Thelma e Louise.

Lembrei-lhe que no filme a Louise cometia um crime. Que poderia se repetir nessa road trip por Ica, caso continuasse me impedindo de dormir.

Ela saiu batendo a porta e voltou alguns minutos depois. A festa havia acabado.

Hacienda Quilloay: onde nascem os MIMO 

No dia seguinte, nosso destino era conhecer a Hacienda Quilloay, onde Pepe está elaborando vinhos em parceria com Mathías Michelini – produtor do Valle do Uco em Mendoza: os MiMo (MIchelini e Moquillaza), Em Mendoza, os dois produzem aguardente de vinho.

No caminho, antigos caminhões, muros de pirca, rústicos, de pedra, como faziam os incas.

A Hacienda Quilloay é um condomínio de terrenos e casas com que possui uma antiga bodega para produção de pisco com botijas de argila artesanais e fermentadores de cimento (40, cada qual de 1800 litros) e 1 hectare de vinhas, que podem ser utilizadas pelos proprietários do condomínio.

 

 

 

As instalações dessa bodega sofreram, como muitas de Ica, com o terremoto de 2007, mas está num processo de recuperação e reconstrução. Percorremos a bodega, andamos sobre os tanques de cimento, enquanto Pepe nos contava sobre a parceria, de suas viagens à Argentina, para produzir aguardente de vinho com Mathías Michelini.

 

 

A conexão desses dois renomados produtores foi o resgate das uvas autóctones e, com certeza, os inusitados vinhos elaborados de uma típica uva pisquera. Quem não se encantaria pela história dos vinhos de Pepe Moquillaza?

Ali, na bodega, os Mimo existem em todos os estágios: nos tanques, depois de macerados; nas botijas; nas barricas e já engarrafados. Pepe, cuidadoso, conferia cada detalhe. São três, os vinhos produzidos na parceria: o Tinto de Ica, um corte de quebranta e moscato rosso, que fica 8 meses em barrica usada e dois laranjas: um de Itália – uvas dali mesmo do condomínio – e o outro, de torrontel, que passa 4 meses nas antigas botijas de barro da bodega.

Conforme prometido, Pepe abriu os Mimos, para que provássemos. Todos, muito intensos, com muita fruta. Os laranjas são apaixonantes. Uns goles daquele vinho e um filme de nossa viagem, desde Lima até a Ica passou pela cabeça. Era mais do que o terroir de Ica que se percebia na boca, no nariz.

Era uma viagem pelas emoções e ideias de Pepe Moquillaza, espelhadas em cada detalhe: os lugares que fez questão de nos apresentar, os rótulos dos vinhos, na bodega centenária que quer recuperar, no condomínio que propõe um estilo de vida sustentável, nos métodos de fazer pisco, nos nomes dos vinhos que já dizem ao que vem.

 

 

 

 

Quase hora do almoço. Hora de voltar para Lima também. Fomos embora e almoçamos no restaurante da estação, a comida típica de Ica. No caminho de volta, não houve tantas paradas. Aos poucos, o sol e o céu limpo de Ica foram cedendo a vez para as brumas limenhas.  Apesar do Peru ser mais que Machu Picchu, não resistimos e fomos conhecer a cidade Inca e Cusco.

 

Na volta ainda encontramos Pepe outras vezes em Lima. Para almoçar, para andar pela orla de Lima, para conversar. No El Gran Combo, restaurante de Gonzalo Pajares, onde nos deliciamos com um lomo saltado, flambado no pisco, vimos Pepe Moquillaza defender o pisco como um produto peruano para uma TV local. Por fim, Pepe nos brindou com uma dose de seu Inquebrantable.

 

No aeroporto de Lima

A viagem ao Peru nos permitiu não só conhecer a cultura em torno da quebranta, mas alguém que tem uma causa pela qual acordar todos os dias: Pepe Moquillaza. Sua causa é o Peru. O Pisco e os vinhos são suas paixões e suas ferramentas.

Ah, minha amiga, apegada ao seu canivete, colocou-o em sua bagagem de mão, sabe como é, para ficar mais perto, esquecendo que é um item proibido neste tipo de bagagem. Ao passar pelo raio x, o canivete se mostrou e sorriu para a funcionária do aeroporto  Em seguida, minha amiga viu seu canivete ser arrancado para sempre de seu convívio. Ele ficará em Lima. Para sempre. Desconsolada embarcou para o Brasil. Mas ela vai superar.