A vida e seus desvios calculados. Do nada aos Los Nadies.

Uruguai. Vinho. Pequena produção. Qualidade. Alta gama. Los Nadies. Nome diferente de bodega que não conhecia. Eu continuo com minha pesquisa, com meu guru virtual, a web. Nos resultados, a página da bodega aparece depois de um vídeo de Eduardo Galeano, escritor uruguaio, narrando Los Nadies, poema do Livro dos Abraços. Não resisto: adoro Eduardo Galeano, desde que me encantei com uma história que termina com um filho pedindo ao pai que o ensine a olhar o mar – era a primeira vez que o via. O vídeo/texto Los Nadies é pungente. Fala de um mundo paralelo. Me tira do equilíbrio. Quando, finalemente, acesso a página da bodega Los Nadies, ainda intrigada pelo nome, tive a certeza de que precisava conhecê-la!

Fiz contato. A visita era possível. Da localização do google maps, transmitida pelo whattaspp, me materializei no Prado, Montevideo, bairro residencial que abriga o Jardim Botânico, que não conheci. A placa na casa confirmou a chegada ao meu destino. De dentro veio Manuel Filgueira, que reconheci da web. Ele queria saber de mim, o que fazia, o que queria, como cheguei aos Los Nadies. Contei da curiosidade sobre o nome, da pesquisa na web. Mas não falei do poema. Gelo quebrado, ficamos amigos de infância, ambos engenheiros. Ele agrônomo. Eu eletricista.

Ficamos em seu jardim, que circunda sua casa. Ele mostrou alguns arbustos, a folha que se dividiu em folhinhas para enfrentar a seca. E pediu que mastigasse as folhas de alguns desses arbustos, para identificar o que sentia. Provei uma carqueja, mais amarga do que as que conhecia do Brasil. Na boca, o amargor da folha, reconhecido como tanino, instrumento de defesa da planta, explicou, para deixar de ser atraente para os animais e sobreviver. E era esse o mote do passeio pelo quintal: partir da natureza, do tanino. Uma abordagem para explicar o sucesso da Tannat no Uruguai, uva trazida da França no século XIX: seus excessos de taninos são a demonstração de sua capacidade de sobreviver – e prosperar – no complexo clima uruguaio: seca, chuva, vento.  O excesso de tanino produzia vinhos as vezes potentes, amargos. Problema? Não no Uruguai, onde o amargo lembra o mate, preferência nacional, e os taninos equilibram a gordura da carne de cerdo, que os uruguaios amam.

O que Manuel não disse, é que eu não precisaria comer as folhas que me mandou mastigar para perceber os taninos. Na dúvida, sem saber o que seria aceitável e sem querer perguntar o que talvez fosse óbvio, comi umas três folhas. Sem  problemas. Estou viva como prova o texto escrito após o consumo delas.

Numa lógica cartesiana ele me fez chegar ao resultado pretendido. A Tannat é a preferida no Uruguai porque a terra e o povo uruguaio a acolheram. Não é sem motivo que só lá a Tannat não se presta apenas para uma mistura, mas para vinhos somente de Tannat!

Dentro de sua casa, Manuel nos recebeu com a mesa repleta de petiscos: ovo de codorna, tomate, rúcula, biscoito, presunto cru, queijo, cenoura. Acompanhamentos para apreciar e entender o Equilíbrio 2011, o primeiro vinho que fez por sua própria conta, e o primeiro que nos serviu. Sem pressa, Manuel pedia que provasse o Equilíbrio com cada comida que havia na mesa. Escolhi o presunto cru em primeiro lugar. Perfeito: pareciam separados na maternidade, o vinho e o presunto. O vinho de 8 anos mostrou que o tempo foi muito generoso. Os aromas frescos e envolventes. Adorei.

Eu tinha um monte de perguntas. Que começavam pelo nome do vinho, os motivos para iniciar a degustação com seu vinho mais antigo. O nome da bodega. Minhas sensações. Mas o Equilíbrio 2011, parecia ter me tornado mais paciente e mais ouvinte. É um vinho sedutor! Um corte de tannat com merlot, com quase 16 por cento de álcool, que parecia uma bailarina na boca. E foi, sem pressa, servindo mais vinho em minha taça, sugerindo outros petiscos para que percebesse as combinações, que ele contou sobre o vinho, sobre a sua vida, que também é o vinho.

Sua história com o vinho, as uvas, começou na propriedade dos avós, que já produziam vinho em Canelones, tradição trazida da Galícia, na Espanha, de onde vieram. Manuel cuidava das parreiras, colhia, ajudava no que fosse necessário. Uma atividade que era parte da vida de sua família. E que o deixava perto dos avós. Daí não pensar nela como profissão. Seu oficio seria a engenharia, elétrica, decidiu. Mas depois que o curso da vida teve que ser desviado para tratar de sua saúde, mudou de engenharia, para a agronômica. Oficio que lhe permitiria estar mais próximo da fazendo dos avós, um lugar que lhe trazia boas lembranças.

E a propriedade da família foi se transformando: nas vinhas foram plantadas cepas francesas, a bodega modernizada passou a produzir vinho fino. Um novo ciclo que começou com seus pais a frente da bodega. E um enólogo francês, renomado, foi contratado para alavancar a produção de vinho. E é justamente esse francês importado para o Uruguai que vai desviar, definitivamente, o caminho de Manuel em direção ao vinho, pois tornou-se seu grande amigo. Um amigo que ampliou seu conhecimento sobre vinho e que o deixou experimentar na bodega da família.

Quando o francês foi casar, na França, Manuel, convidado para ser seu padrinho de casamento, partiu junto. Na França permaneceu mais tempo, o que lhe permitiu descobrir as possibilidades do vinho, da produção, da técnica, graças às conexões de seu amigo com produtores conceituados na França. Foi lá, trabalhando, que entendeu o significado da cultura em torno do vinho para o francês, do vinho compartilhado, do vinho que agrega. Com essa visão, voltou para o Uruguai. Para fazer vinho que fosse a expressão de um lugar, para ser compartilhado, para ser o melhor que pudesse fazer.

Manuel casou, teve filhos, trabalhava na bodega da família, na época uma das mais modernas do Uruguai. Tudo como imaginara, apesar dos obstáculos, dificuldades, antagonismos. Desvios no caminho que permitem as reviravoltas, o crescimento, o reconhecimento. Mas alguns obstáculos pareciam maiores do que podia ultrapassar: a bodega Filgueira, propriedade da família, tinha sido vendida. Manuel ficou sem chão, sem emprego, sem casa – ele morava na propriedade. Mas sua avó, de quem ele diz ter as melhores lembranças, decidiu lhe dar as terras que lhe pertenciam. Nessa parte da antiga propriedade, que era agora sua, as uvas anunciavam que poderiam e queriam produzir vinhos fantásticos – a propriedade foi vendida perto da época da vindima. O caminho mais fácil seria vender as uvas, mas ele decidiu criar seu próprio obstáculo: seguir por onde pudesse produzir seus vinhos. Com dezenas de amigos convocados de última hora, fez a colheita. Nas instalações da Bodega H Stagnari, fez seu primeiro vinho solo: o Equilíbrio 2011. Fermentado com leveduras nativas, sem passagem por barrica. Engarrafado no mesmo ano. Menos de 10.000 garrafas. E deu o nome Los Nadies ao seu projeto de produção de vinhos. Porque? Porque nada sabem do Uruguai, nada sabem da tannat. O nome Los Nadies é o primeiro gole que seu vinho oferece, ainda longe da garrafa: reflexão.

Continuamos com os petiscos, agora para acompanhar o Equilíbrio de 2015. Um vinho jovem, mas mostrando que podemos nos alegrar com sua juventude, com seus taninos presentes. Com suas possibilidades na maturidade. E mais uma vez, a tannat encantou. Manuel aprendeu com o francês a fazer cortes.

Ele contou dos outros vinhos que faz, como cuida das vinhas. Como engenheiro agrônomo procura entende-las, entender a natureza onde estão. Mas quer o melhor que elas puderem oferecer. Para isso a intervenção é mínima, sempre.  Se as uvas não ficarem boas para fazer vinho, simplesmente não fará vinho, pois só faz vinho com suas uvas.

Teremos surpresas boas em breve. Manuel está fazendo cidra. Foi o que disse, quando apresentou o amigo basco, que se despedia quando cheguei.

A conversa em torno dos vinhos de Manuel já durava mais de três horas. Era hora de partir e ver o que poderíamos comprar, pois seu vinho não é fácil de encontrar nas casas de vinho de Montevideo, eu pude comprovar. E ele explicou: só vende para os amigos, para ter a certeza de que serão valorizados por eles.

A história de Manuel tem mais desvios, obstáculos, e logicamente vitórias, finais felizes. Tranquilamente daria um filme. Ele vai contando para que se entenda e que se possa sentir o que seus vinhos oferecem. Ele encarna e pratica a conversa em torno do vinho, a cata social, o vinho como modo de viver. Assim encantou os japoneses ao participar de um concurso de vinhos. Desde então o vinho de Manuel é uma conexão com o Uruguai. Ele diz que os rituais os aproximam. A maneira que encara o oficio de fazer vinho agrada aos japoneses.

Naquele dia, na sala confortável da casa que foi de sua avó, compartilhando o mate com sua mulher Gabriela, ele disse que um vinho deveria ser sempre apresentado por sua história, pela história de quem o produz. Sabores, aromas também são fundamentais. Para definir o que está bom, o que se gosta. Mas a essência de um vinho está na sua história. E eu lembrei de Eduardo Galeano, de novo, no texto onde o filho pede ao pai que o ajude a olhar: peçam sempre para Manuel lhes ajudar a entender seu vinho. O vinho com história, com a cultura do seu entorno, tem um sabor inesquecível.

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