Herrera-Alvarado

Os vinhos me guiam. Atrás deles, fui para Fundo San Jorge, Quilpué, Región de Valparaíso, Chile, encontrar Arturo Herrera e Carolina Alvarado os proprietários dos vinhedos Herrera-Alvarado, que levam o nome da família que formaram. Unidas por meio de um símbolo gráfico, o hífen, os Herrera-Alvarado, em meio a sua vida fazem vinho, melhoram o mundo, olham apaixonadamente para o Vale de Marga-Marga, dando um significado a esse nome composto Herrera Alvarado.

Na visita marcada com Arturo, fui recebida com sorrisos e abraços. Carolina e Arturo são um casal alegre e simpático. Com eles, seguimos andando pelo vinhedo, olhando as parreiras, as árvores nativas, como o huingam, sentindo os aromas do campo. Nessas parcelas, apenas compostos biodinâmicos são utilizados. Nada de química: nem na fabricação do vinho. Tentam reutilizar e reaproveitar tudo: luz solar, água, o resto da vindima para adubar as parreiras…

No caminho, aprendi um pouco da história vinícola do vale de Marga Marga, onde estávamos, que nasceu em 1586, com a chegada de Pedro de Valdivia, em busca de ouro. Cientes da dependência do vinho, os espanhóis plantaram  uvas para produzir seu vinho. Mas apesar do pioneirismo na história vitivinícola, a produção de vinho no vale de Marga Marga tornou-se insignificante ao longo dos tempos. Muitos foram os fatores: o custo para produzir vinho, taxas impostas pelo governo para a produção de bebida alcoólica, justificadas pelo combate ao alcoolismo, a construção de edifícios no lugar das propriedades decadentes, a preferência pelos vinhos de cepas francesas produzidas por grandes vinícolas.  Entretanto, os Herrera-Alvarado e suas famílias continuaram usando suas uvas para produzir vinho, como sempre se produziu no Vale de Marga Marga, com a pisa de uvas sobre o couro de vaca, com o uso de lagares, usando a uva país.  Para seu próprio consumo. Para vender a quem viesse comprar. Uma vitivinicultura silenciosa, como é muitas vezes as dos pequenos produtores. Para eles, a tradução de vinho típico chileno é rusticidade e aroma de campo.

Havíamos chegado ao nosso destino: uma mesa localizada no meio da propriedade, ao lado da carbonera, onde nos aguardavam os vinhos Herrera-Alvarado, algumas fatias de pão, azeite, mel. Ali nos sentamos para conversar. Com vinho. Conhecendo seus vinhos.

O primeiro, o Oro Negro, um vinho de país, rústico e cativante. uma joia da região, como o ouro que Valdivia veio buscar no Chile. Brindamos e demos uns goles.

Alguns anos atrás, os Herrera-Alvarado, cientes de que era necessário fazer algo pelo Vale de Marga-Marga., pelas pessoas da região, juntaram aqueles que ainda sabiam fazer vinho com os que só vendiam as uvas, para que, juntos, produzissem vinho. A ideia se transformou em realidade no Fundo San Jorge onde as famílias envolvidas formaram  uma cooperativa (www.cooperativavvmm.cl). Com o apoio de Arturo, todos fazem seu próprio vinho. Todos orgânicos. Todos naturais. Com biodinâmica. Macerando em couro de vaca como se fazia em Colchiguay. Todos interessados numa vida melhor. Vinificam o que a natureza lhes dá, com leveduras naturais, com paciência para aguardar a fermentação. Sabem que estará pronto quando o gosto lhe apetecer.

Num ano, diante da possibilidade da chuva, Arturo e Carolina decidiram colher as uvas que já estavam maduras antes da hora imaginada, O vinho resultante ganhou uma acidez diferenciada. Ruim? Não! Foi o vinho que a natureza deu.

Ali, no Fundo San Jorge, onde há parreiras antigas, plantaram Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Chardonnay. Junto com o povo da região, estão recuperando e replantando  algumas uvas patrimoniais, autóctones do vale, como San Francisco, Pastilla del Belloto, Rosa de Curtidilla.

E Carolina começou a contar das catas sociais. Que acontecem na mesa onde estávamos, no meio do vinhedo, aos domingos. Nesses dias, os Herrera-Alvarado abrem as portas de sua propriedade para quem quiser visita-los, para que, sem nenhum custo, tenham a oportunidade de apreciar vinhos que exprimem a região, saudáveis, orgânicos, naturais. Nesses encontros, fala-se da vida, do que passa, de problemas, de soluções, do encontro das pessoas. E o vinho de repente surge, como na nossa conversa. Junto com o pão. Para resgatar experiências pessoais, memória, sensações, risadas, lágrimas A proposta não é, como numa degustação, tentar descrever as características do vinho.Nas catas sociais não há regras. Bebe-se o tinto e depois o branco. Aqueles que desejam traduzir suas sensações em palavras, Carolina orienta para que pensem no vinho como uma pessoa. Jovem, com caráter, austero, alegre. E, à medida que os domingos e as catas sociais acontecem, os participantes vão apreciando outros vinhos, sentindo outras sensações. Porque não é preciso ter um gosto estável, imutável. E possível mudar.

Agora era o La Zaranda, um vinho de sauvignon blanc que estava em nossas taças, alegrando a boca.

E há ainda o vinho de bairro, que uniu os moradores da região para a produção de um vinho único com as uvas das parreiras de suas casas, muitas delas de uvas patrimoniais e que não se transformariam  em vinho se não fosse essa proposta. Eles colhem suas uvas e juntam-se para pisá-las e produzir um vinho. O vinho do bairro. Feito por eles para eles mesmos.

Agora é o Pinot Noir macerado em couro de vaca, que é servido. Potente e suave ao mesmo tempo. O rótulo que admiramos foi desenhado à mão por Carolina. O vinho é fantástico.

A tarde ia dando lugar à noite. Fomos para a bodega, para conhecer onde é realizada parte da produção dos vinhos. Lá, Carolina encontrou  o restante da equipe Herrera-Alvarado. Seus três filhos, que ganharam um sorrido largo de seus pais.

Saímos de lá com alguns vinhos. Muito menos do que gostaríamos. O Cuero de Vaca Pinot Noir 2017  nem chegou a entrar na mala para o Brasil. Foi catado socialmente num restaurante – que, lamentavelmente não o possuía na carta –  enquanto relembrávamos a tarde que nos encheu de esperança na humanidade.

Os  Herrera-alvarado se juntaram para viver, fazer vinho e transformar o mundo e deram um novo significado à junção dos nomes de suas famílias. Com seu jeito de viver a vida em torno dos vinhos, do campo, Carolina e Arturo vão encantando as pessoas que buscam a natureza em forma de alimento.

Se puder vá conhecer Arturo, Carolina e seus vinhos. Se tiver sorte, vai ser num domingo, para poder participar da “cata social”. Mas já aviso: sua visão do mundo corre o risco de mudar!

 

4 ideias sobre “Herrera-Alvarado

  1. Não tive a chance de conhecÊ-los, mas consegui provar o excelente Zaranda Sauvignon Blanc em um restaurante em Santiago, um dos melhores que tomei recentemente, super frutado, mas sem ter o maracujá como aroma e paladar principal, ADOREI !!! Infelizmente o vinho não está nas lojas, apenas em alguns restaurantes.
    UMA DESCOBERTA

    • Olá Alexandre.

      O Zaranda Sauvignon Blanc é maravilhoso mesmo. Se voltar ao Chile, não deixe de visitar os Herrerra-Alvarado. Valparaíso é tão pertinho que vale a pena. Lá, com certeza você vai encontrar o Zaranda. Eu trouxe um na mala. Abraços e obrigada por comentar.

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