Cacique Maravilla

O primeiro Cacique Maravilla a gente nunca esquece! O meu foi o Gutiflower, que provei na feira Naturebas. O vinho de moscatel de alejandría, torontel e corinto era nada parecido com os vinhos chilenos que já havia bebido. Um vinho branco, turvo, elaborado com uvas que se usam para fazer pisco no Chile, quase nada doce e meio espumante. E delicioso. E para tornar a experiência inesquecível, o Gutiflower foi servido pelo próprio produtor, Manuel Moragua Gutiérrez. Ele, sua mulher e sua filha exalavam entusiasmo e alegria pelos vinhos que apresentavam. E como os vinhos me guiam, foi fácil me convencer de que precisava conhecer  Yumbel, Bio Bio,  onde os vinhos do Cacique Maravilla eram produzidos.

E algum tempo depois o google maps me dizia que havia chegado ao meu destino: Viña Cacique Maravilla, Yumbel, Región del Bío Bío, Chile.

Do lado de fora da casa, Manuel e sua mulher Paola, emoldurados por um dia de sol e céu limpo, nos esperavam para um combinado de visita e almoço, que aconteceria em sua própria casa. E, de repente, estávamos conversando, acomodadas no sofá da sala, bebendo o seu Moscatel de Alejandria, o vino Naranjo, comendo morcilla assada na brasa e queijo fresco e ouvindo música boa. Aliás, a seleção musical que embalou o nosso dia, é um atrativo à parte.

Manuel Moragua Gutiérrez produz vinho. Como seus pais, avós, bisavós… desde que chegaram ao Chile com as uvas da viña 33 de Yumbel. Nesta parcela, há uvas país, trazidas das Ilhas Canárias, com mais de 150 anos, plantadas por um ancestral de Manuel, e que são mantidas, desde então, sem químicos ou herbicidas e também sem irrigação – os tais secanos. São essas uvas os únicos ingredientes de seus vinhos. Nada mais. Seu pipeño é elaborado com uva país como sempre foram elaborados na região: em grandes barris abertos. O nome Cacique Maravilla é um resgate, na história da região, de seu ancestral, que recebeu essa deferência por ser um cara legal. Um nome na medida para vinhos que também são parte dessa história.

E como vinho e conversa são uma harmonização perfeita, conversamos: de vinho natural, que é um tema ao mesmo tempo local e global, da necessidade de estarmos conectados com o que nos interessa,  sobre a devastação que o terremoto de 2010 provocou no Chile, em especial ali em Yumbel, na sua casa, nas instalações onde produzia seu vinho. Da reconstrução de sua casa, da bodega. Das viagens que tem feito pelo mundo porque o mundo quer conhecer seus vinhos.

E fomos conhecer as uvas, as parras: “se quer saber do vinho, vá conhecer o vinhedo, as parreiras, as uvas” – é o que diz Manuel.  E as parreiras que produzem os vinhos do Cacique Maravilla são antigas, retorcidas pela natureza. Bem cuidadas. Crescem livres, cercadas de boldos centenários, rosa mosqueta, centeio.

De volta à casa, Manuel nos ofereceu seu pipeño na varanda, onde a carne que comeríamos no almoço rodava lentamente sobre a brasa.

Dali, vê-se um vale, que após o período das chuvas transforma-se em lago, onde os patos vem nadar. Diante daquele cenário, fiquei sem saber o que dizer e não consegui deixar de fazer a pergunta clichê, que ele já deve ter ouvido um milhão de vezes: o que é um vinho natural? “É quando o vinhedo é natural, é tratado naturalmente, sem intervenções. Porque é a base de tudo. A partir daí pode-se fazer um vinho natural, também sem intervenções. Uva e métodos ancestrais. Porque vinho é comida. E, como tal, deve ser saudável e acessível”.

 

No almoço, para acompanhar a carne, que estava fantástica, seu Cabernet Sauvignon, de parreiras mais novas que ele mesmo plantou.

A visita tinha sido muito além do que poderia imaginar: tínhamos desfrutado da rotina de uma família que vive em torno do vinho que produz para seu próprio consumo, para a comunidade, para o mundo.

Na hora de ir embora, concordamos que uma das coisas boas da vida é conviver com as pessoas. E que o vinho chama para esse convívio.  Por isso foi um dia maravilloso!

2 ideias sobre “Cacique Maravilla

  1. Olá Boa tarde! Parabéns, muito bem elaborado. De vinho nem beber por habito, por vezes ao fim de semana um caseiro fernanpires, da minha vinha. Vou cortar a vinha este ano, o meu vizinho está velho para tratar da vinha e eu não moro lá. É pena, foram 40 anos a cuidar e apurar as castas. Abraços.

    • Olá Manuel, que bom que gostou. Pena não poder cuidar mais da sua vinha. É dessas vinhas velhas que saem uns tesouros. Obrigada pela visita. Abraços para você também

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