Beber para esquecer… ou para lembrar!

Danuza cantava “Cheia de charme” com Guilherme Arantes. Ela, na sala de sua casa. Ele, na tela do computador. A coreografia que seu corpo executava era uma espécie de dança do ventre contida. Com essa dancinha esquisita, foi até o armário onde guardava bebidas. De lá, pegou uma garrafa de vodca. E continuou a cantar e dançar, com a garrafa nas mãos.

“Quando a vi, logo ali tão perto…”

No meio de sua cantoria ouviu a campainha tocar três vezes seguidas. Danuza, que não esperava nenhuma visita, apressou-se para desligar o computador e silenciar Guilherme Arantes. Do outro lado uma impaciente Paula gritou:

“Sou eu, Paula.”

danuza_em_susto2Atordoada, Danuza, que ainda estava com a garrafa de vodca na mão, correu para colocá-la de volta no armário, antes de abrir a porta.

“Sua dupla ficou muda?” disse Paula, ao entrar mancando no apartamento de Danuza.

“Dupla?”

“Guilherme Arantes! Ou acha que não ouvi você cantando? Aliás, não precisa pensar em nenhuma desculpa, porque eu não vou perguntar porque você estava ouvindo Guilherme Arantes!”

Danuza ameaçou falar, mas Paula só havia pegado fôlego para continuar.

“E antes que você me pergunte como estou, e a gente consuma da nossa existência uns 5 minutos de conversa fiada, vou ser direta: eu vim em busca de companhia para beber. Eu preciso beber! Tô precisando relaxar… E não estou aberta a sugestões tipo dar uma corrida, por motivos óbvios – e apontou o pé inchado – ou ver uns episódios de Modern Family…”

Paula estava visivelmente irritada. E se largou sobre o sofá. Enquanto se ajeitava em silêncio Danuza aproveitou para transformar o monólogo em conversa.

“Oi para você também…”

Mas o monólogo continuou…

“Meu dia foi terrível! Torci o pé correndo para entrar no elevador do trabalho.  Em seguida, antes que eu bebesse um café, meu chefe, ignorando a transformação de meu pé numa pata de elefante, me pediu para acompanhá-lo numa reunião que começou às 9:00h. A sala, lotada, tinha um único ar condicionado que não fazia nem cócegas no suor que meu corpo teimava em produzir. Às 16:00 horas a reunião terminou. Eu estava com o pé doendo, com fome – é preciso dizer que não houve intervalo para o almoço? – e suada. Resolvi ir embora e peguei um táxi para chegar mais rápido em casa. Faltando uns 500 metros para chegar à minha rua, o táxi parou no sinal, mas o carro que vinha atrás, não.  Que susto! Mas ninguém se machucou. Os motoristas saíram para aquela cena de praxe: olhar o carro, fazer aquela cara de reprovação, trocar telefones. Tudo normal. Mas depois de 15 minutos de discussão resolvi deixar o táxi e seguir andando.”

“Dia cheio…”

“Mas, calma, não acabou! Quando eu achei que nada mais poderia acontecer, vi, na minha rua, o caminhão da companhia de luz. Mais à frente, meu prédio: o único da rua completamente apagado. Não tive coragem de perguntar o que aconteceu ou quando a luz seria restabelecida. Diante dos 17 andares a serem vencidos com 1 pé e meio, eu me rendi. Vim pedir asilo da minha vida. E preciso beber!”

“Terminou? É a minha fala agora? Já entendi! Você quer beber para esquecer o dia de hoje! Não vou tentar lhe convencer do contrário. Aliás…acho que sei o que você precisa: uma vodca que eu ganhei há alguns anos…”

Enquanto Danuza ia em direção ao bar para pegar a vodca que havia acabado de guardar, Paula se levantou e foi mancando até a adega que guardava os vinhos de Danuza. Abriu a porta e pegou um vinho. Parada, com a porta da adega aberta, examinava o rótulo da garrafa.

adega

“Acho que eu prefiro vinho, Paula. Podemos beber um desses…”

Diante do estado de ânimo da amiga, Danuza percebeu que a vodcca ficaria para outro dia. Resignada, concordou.

“Se você prefere vinho, tudo bem, Vou pegar umas taças na cozinha.”

Paula colocou o vinho que estava em suas mãos de volta na adega. Tirou outra garrafa, examinou e devolveu também. Parecia insatisfeita com as garrafas que havia examinado. Então, agachou-se e colocou a mão o mais fundo que pode na adega. Quando Paula voltou, ela estava sorrindo com uma garrafa na mão.

“Olha se não é o destino: escolhi sem ver, um vinho que estava lá no fundo. E o que apareceu? Quinta da Pellada! É a minha cara hoje: pelada diante da realidade. Vulnerável. Exposta. Lembra da estória do homem nu do Fernando Sabino: perseguido, humilhado só porque foi, sem roupa, pegar o jornal na porta de casa…”

Danuza largou as taças em cima da mesa de centro e avançou em direção a Paula.

“Você é um enigma a ser desvendado: não entendi como o seu cérebro juntou Fernando Sabino, Quinta da Pellada e esse seu dia esquecível! Por isso não posso nem discordar! A única coisa que eu tenho para lhe dizer agora é: nem ouse pensar em abrir o Quinta da Pellada! Esse vinho não é para relaxar! Escolhe outro. Tem vinhos ótimos aqui.”

Danuza tirou o vinho das mãos de Paula.

“Caramba! Vinho não é para beber com os amigos? Não é o que dizia o Mário Quintana?”

“É isso que dá ler tudo na diagonal! Ele disse: por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente, aquele que tu bebes calmamente com o teu mais velho e silencioso amigo…. “

“Um dia você ainda vai admitir que decora essas coisas para fingir que tem memória fotográfica?”

“Continuando. Na minha interpretação: qualquer vinho fica maravilhoso quando a gente bebe com um velho amigo. Por isso não precisamos beber o Quinta da Pellada. Como já somos velhas amigas, qualquer vinho serve. Tem tanto vinho na adega. Escolhe outro!”, disse Danuza, já sem paciência.

“Sim, podemos beber outro vinho. Mas agora eu fiquei curiosa: por que eu não posso beber esse vinho? È muito caro, produção limitada?”

“ Não! Nada disso!”

Paula de braços cruzados esperava uma explicação. Danuza relutante, continuou.

“É que eu tenho uma relação, digamos, especial com esse vinho.”

Paula, com raiva, disse:

“E que nunca me contou! Que velha amiga é essa que me esconde seus relacionamentos proibidos? Mais uma para o dia de hoje!”

“Deixa de ser dramática. E quem disse que era um relacionamento proibido? Disse que era especial!”

“Posso até ouvir Mario Quintana com uma nova citação a respeito do vinho: você vai descobrir um amigo falso quando um vinho especial lhe sonegar e uma fofoca antiga não lhe contar. Nessa ordem.”

“Antes de você atormentar a alma do Mario Quintana com mais uma pérola, eu conto. Aliás nunca contei porque não surgiu a oportunidade. Não há nenhuma regra que estabeleça que velhas amigas tem que contar tudo de suas vidas.”

Ela faz uma longa pausa, como quem está refletindo, e resolve contar.

“Bem, a estória é a seguinte; Há alguns anos, estava em Portugal e resolvi visitar a Quinta da Pellada, uma vinícola conceituada no Dão. A viagem de carro já teria valido a visita: poder olhar da janela do carro a Serra da Estrela ao longe emoldurada por um dia ensolarado de primavera me fazia até respirar melhor. Quando cheguei à propriedade, um lugar lindo com um casarão histórico, me senti dentro de um daqueles catálogos de vinhos repletos de fotos. Eu juro: poderia ter voltado dali e mesmo assim teria sido ótimo. Mas segui em frente e fui recebida pelo Álvaro Castro, o dono da Quinta da Pellada. Me tratou, sem nunca ter ouvido falar de mim, como se fôssemos amigos de infância. E olha que minha insignificância no mundo do vinho era, naquela época, a terceira potência do que é hoje. Passamos horas muito agradáveis. O Álvaro, um homem espirituoso, brincalhão e muito à frente do seu tempo, foi quem me disse, pela primeira vez, que não existe certo ou errado na combinação de vinho com comida, porque a língua de cada um é que decide o que vai bem. E uma mesma língua pode ter percepções diferentes ao longo do dia, da semana, da vida.”

Paula, ainda de braços cruzados, demonstrava impaciência.

“Dá para ser um pouquinho mais objetiva? Em que momento a gente vai chegar no vinho?”

“Acompanhei Álvaro e sua filha Maria – que é enóloga e à época estava trabalhando com o pai – pela propriedade.  Era época da vindima… um movimento alegre de pessoas indo e voltando dos vinhedos. E ainda tive a oportunidade de ver o início da produção do vinho. Como você pode ver, mesmo sem provar nenhum vinho, a visita já estava sendo ótima. Quando, finalmente, fomos para a degustação dos vinhos e provei o Quinta da Pellada, uma garrafa igual a essa que você tentou abrir, eu tive a sensação de que fazia parte daquele cenário, daquele universo.  Um vinho maravilhoso! Comprei duas garrafas para trazer para o Brasil.”

“E?”

“Quando abri a primeira garrafa, algum tempo depois, meio nostálgica, fui procurar as fotos da viagem. E, descobri que os cupins haviam destruído as minhas lembranças: as fotos e o filme. É, isso aconteceu há muito tempo, quando não existiam máquinas fotográficas digitais.  Fiquei arrasada! Por isso decidi guardar a outra garrafa de Quinta da Pellada, para o momento em precisar, ou quiser lembrar daquele dia maravilhoso. O vinho certo para ativar aquelas lembranças. Uns goles e viajo sem passaporte para o Dão.  Mas para isso, eu tenho que estar no clima certo, para não desperdiçar nada do que esse vinho pode me oferecer.”

“Uau! Que estória! Me chama para assistir, quando virar filme.”, disse Paula com ironia.

“É por isso que eu não vou abrir esse vinho, porque hoje eu não estou precisando voltar ao Dão.”, disse Danuza decidida.

“Ou não quer…”

“O que eu quero é colocar o Quinta da Pellada de volta na adega.  Escolhe outro vinho. Ou quer que eu escolha?”

“Não! Perdi a vontade de beber vinho! Hoje, pelo menos. Mas não pense que vou esquecer esse Quinta da Pellada. Não mesmo! Mas, por enquanto, vamos voltar à primeira opção: a tal vodca.”

Danuza animada sorriu, pegou a vodca no armário e entregou a Paula.

“Vou pegar uns copos, que essa taças de vinho não combinam com vodca.”

Paula examinou a garrafa, como fez com o vinho.

“Vodca Tufão. Nome sugestivo. E o rótulo  – ela observa antes de continuara a falar – é mimeografado?”

Danuza voltou com os copos da cozinha. Pegou a garrafa das mãos de Paula e examinou o rótulo, cujos detalhes conhecia há muito tempo e fingiu-se surpresa.

“Parece que o rótulo é mimeografado realmente. Ganhei há tanto tempo e nunca tinha notado. Talvez seja uma produção artesanal…”

“Um presente que ganhou e guardou por tanto tempo… É outra bebida para teletransporte, não? Pode me dizer para onde estamos indo?”

Danuza despeja a vodca em dois copos de geleia.

“Para os meus 20 anos de idade. Para um jeans 38.”

“Deixa de ser genérica, que essa Tufão,  guardada por mais  de 30 anos deve ter presenciado algum momento singular da sua vida. Uma vida, anterior ao Quinta da Pellada, com certeza. E que, sabe-se lá porque, você quer reviver com detalhes. Ou então não estaríamos bebendo em copos de geleia.”

Danuza sorriu e assentiu que sim. E, então, brindaram com seus copos de geleia. E cantaram Cheias de Charme juntas com Guilherme Arantes. Elas, na sala. Ele, no computador.

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