A paisagem através de uma taça de vinho

Se alguém me perguntasse, naquele dia, o que significava viajar, eu teria dito: viajar é engordar. Porque, em Portugal, comer e beber não era uma opção: era uma oportunidade que acontecia mais vezes que a minha necessidade de comer ou beber.  Era o preço para entrar no cenário e apreciar a paisagem de um referencial privilegiado: a mesa.

A viagem a Portugal já estava por terminar. Em breve eu e minha amiga estaríamos de volta ao Brasil. De volta às nossas roupas. De volta à balança do banheiro.

balanca

Aquela lembranças e a bermuda que me apertava a cintura resgataram de minha memória um folheto de propaganda que vira no saguão do hotel: um passeio de caiaque pelas águas calmas do rio Degebe, perto de Évora, onde estávamos. Era o que eu precisava naquele momento: turismo contemplativo – sem comida ou bebida – com exercício.

Ou, pelo menos, uma tentativa de fazer meu corpo consumir a energia acumulada na viagem por Portugal, conhecendo-o, a partir de um referencial diferente… da mesa, das igrejas, das garrafas de vinho.

Com o passeio agendado, eu e minha amiga rimos ao constatarmos que nunca tínhamos andado de caiaque.

No dia e hora marcados, embarcamos num jipe com nosso guia Luís, um português falante e simpático, em direção ao rio Degebe.
Quando cheguei, fiquei feliz com o programa diferente. A paisagem do Alentejo, vista da margem de um rio, numa manhã de sol, valeu pelos os quilômetros de estrada de terra percorridos num jipe sacolejante.

 

Na beira do rio, de onde iniciaríamos o passeio, Luís, apresentou o formato do passeio: eu e minha amiga utilizaríamos um caiaque duplo e ele iria num caiaque individual, nos guiando pelo rio durante duas horas, tempo que estimava para que fôssemos e voltássemos do local onde se fazia uma parada para descanso. Nos apresentou o caiaque duplo e os remos. E deu as instruções para manobrá-lo de um modo geral e também como uma dupla.

Remar cadenciado, remar do lado contrário para mudar a direção, quem dá a direção é o da popa …

Quando Luís terminou seu briefing, corri em direção ao caiaque e me posicionei na popa, para garantir que seria a comandante da embarcação. Minha amiga, sem opção, entrou em seguida na proa.

 

Navegamos com calma, como parte daquele local bucólico e calmo, observando a natureza, os peixes, as aves, o horizonte, as vacas que pastavam na margem…

 

Essa era a proposta do passeio, descrita no folheto de propaganda. Era isso que deveria ter sentido durante o passeio de caiaque! Mas, no lugar dessas sensações edificantes, remei, remamos por quatro horas. Em círculos, em zigue-zague, às vezes em linha reta. Encalhamos em pedras, em montes de areia, nas margens do rio. Ficamos presas em galhos de árvore. Quase perdi meus óculos e nos molhamos, muito. Descobri que não é possível frear um caiaque. Troquei de lugar duas vezes, da proa para a popa, porque minha amiga creditava os erros de nossa “navegação”  ao meu comando na popa. E discutimos por cada movimento errado, por cada pingo de água que caiu dentro do caiaque, por todas as vezes que ignorávamos a existência uma da outra.  Luís, do seu caiaque, de uma distância segura, indicava os pontos a serem observados no passeio e não interferiu na condução do caiaque duplo.

Quando voltei à terra firme estava exausta, molhada e com a sensação de ter desperdiçado todos os meus sentidos durante o passeio, apenas remando. E, pelo olhar de ódio que minha amiga me lançou, além da paisagem durante o passeio, perdi a amiga também.

 

Enquanto trocávamos as roupas molhadas protegidas pelo jipe e observadas pelas centenas de vacas que pastavam – uma narrativa que não cabe nessa estória, Luís havia montado uma mesa com pão, presunto, queijos e vinho.

Uma surpresa para as nossas remadoras. Tudo do Alentejo. Presunto de porco preto, pão alentejano caseiro, queijo de leite de ovelha e vinho. – disse Luís.

O cansaço abriu meu apetite de tal maneira que não foi preciso insistir:  me rendi à surpresinha de Luís. Minha amiga, do lado oposto da mesa, também se rendeu. Em Portugal, contemplação tem comida!

Iniciamos nosso lanchinho em silêncio, que era o melhor a não dizer, depois do passeio estressante. O silêncio era melhor do que as discussões que tivéramos enquanto remávamos.

Alguns goles de vinho mais tarde, com a raiva abrandada, já conversávamos… sobre o passeio, a beleza do lugar, o programa diferente.

Meia garrafa consumida e já riamos de nossos desacertos ao remar em dupla.

Luís, então, me perguntou o que tinha achado do passeio. Cercada pelas vaquinhas e olhando a garrafa do Vila Gamas tinto, um regional Alentejano simples e honesto, que Luís nos servia, soltei, sem filtro, o que me veio à mente:

Logo que saí do caiaque, se tivesse que resumir o passeio em uma frase diria que: remar e passear são verbos que não combinam. Mas agora, alguns goles de vinho depois, passear de caiaque no rio Degebe foi um dos melhores passeios que fiz em Portugal. As terras de Pêra Manca produzem vinhos concentrados de boas lembranças do Alentejo. Quando bebido, elimina lembranças desagradáveis. Só deixa as imagens e os sabores de Portugal na memória.

Luís sorriu e ergueu seu copo de refrigerante num brinde.

Então meninas, ainda amigas?

Sim. Desde que não falte vinho! – disse minha amiga enquanto acertava sua taça na minha.

E brindando, pensei: desde que sejamos sempre meninas.