O primeiro vinho natural a gente não esquece, principalmente se for da Bodega Cauzón

Duas frases que ouvi antes e durante a viagem à Espanha: “Não deixe de conhecer Alhambra!” e “Granada é muito mais que Alhambra!”. Separadas, pareciam disputar uma queda de braço: de um lado Alhambra, do outro o resto de Granada. Mas como uma única frase – “Não deixe de conhecer Granada: há Alhambra e muito mais.”, resumia o que pretendia fazer em Granada. E para garantir minhas pretensões, comprei, antecipadamente, o ingresso para uma visita noturna a Alhambra.

 

E busquei, com a ajuda do meu guia cibernético – sempre ele, o google,  além dos muros da fortaleza, a tal Granada que merecia ser conhecida e que eu gostaria de conhecer: as bodegas, os vinhos de Granada.

 

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Para quem não sabe exatamente o que quer, 455.000 respostas. Na primeira, o endereço eletrônico de um restaurante, não era o que procurava. Mas a segunda, achei que valeria a pena navegar. Cliquei. Era exatamente o que eu queria: um sitio eletrônico com informações, entre outras, sobre enoturismo no entorno de Granada, com possibilidade de visitas à bodegas e degustações de vinhos. Continuei a navegação para o endereço eletrônico das bodegas, para saber um pouco mais. Duas delas produziam vinho natural. Vinho natural? Perguntei à amiga que me acompanhava na viagem se ela sabia o que era ou se tinha bebido vinho natural.

Já bebi artificial. Sangue de Boi. Mas isso é passado.

E lá fui eu para o google de novo, para tentar desvendar o que era vinho natural.

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Mais uns cliques e algumas leituras. Descobri que vinho natural é aquele produzido com um mínimo de intervenção, sem sulfito. E, o mais interessante, é que a terceira resposta das 17.100.000 respostas para minha pergunta “vino natural que es” é uma bodega que produzia vinho natural e que ficava em… Granada

Eu sabia que as pesquisas que o google faz para um usuário, eu, no caso, tem relação com seu perfil de pesquisas – eu tinha acabado de pesquisar sobre Granada. Mas preferi enxergá-lo como um oráculo dessa vez, me revelando no mundo virtual por onde seguir no mundo real dos vinhos. Como ficaria em Granada dois dias, agendei duas visitas a bodegas. A primeira para a Bodega Cauzón, descoberta na primeira pesquisa, 50 km distante de Granada. A segunda para Barranco Oscuro, mais distante, resultado da pesquisa sobre vinho natural. A Granada além de Alhambra estava garantida.

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Chegou o dia: estava na estrada, em direção à primeira bodega a ser visitada, a Bodega Cauzón. No caminho, a Sierra Nevada em pleno verão. Parecia um aperitivo para qualquer que fosse o resultado da visita.

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Sem grandes dificuldades – o que significa que houve retornos fáceis para os caminhos errados e as pessoas a quem perguntei como chegar ao meu destino foram objetivas –  estacionei em frente à Bodega Cauzón, cerca de 50 km de Granada, 1000 metros acima. Na hora combinada Ramón Saavedra estava na porta de sua Bodega.

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Contei-lhe sobre a trajetória desde “Granada é muito mais que Alhambra” até sua bodega de vinhos naturais. E que tinha ficado curiosa com o assunto vinho natural. Estava escrito, disse sorrindo. Por caminhos que só o mecanismo de pesquisa do google consegue percorrer. Pensei.

Apresentou a estrutura da bodega, que não é muito diferente de outras bodegas: equipamento para maceração das uvas, tanques de aço inox para fermentação, caixas com garrafas de vinho. Tudo organizado, limpo e refrigerado.

Foi, então, que fiz a primeira pergunta clichê: Porque decidiu fazer vinho? Eu queria iniciar uma conversa, saber mais sobre a bodega. Mas, me arrependi de ter feito uma pergunta tão sem graça e que na maior parte das vezes, em Portugal e Espanha onde há vinhedos por todo lado, tem uma resposta quase padrão: meu avô fazia vinho, meu pai fazia vinho. Eu decidi fazer vinho também. Ou o vinho sempre fez parte da minha vida. Mas Ramón tinha uma estória um pouco diferente. Ele era cozinheiro, de um restaurante estrelado soube depois, e por isso aproximou-se dos vinhos. Um dia quis mudar de vida. Na equação da transformação da vida entraram os vinhos, voltar a viver em Graena, de onde tinha saído jovem para trabalhar, um pedaço de terra que já possuía e poder lidar e valorizar a natureza para ter bons produtos. O resultado é que passou a fazer vinhos com o que a terra lhe oferecia e lhe ensinava, assim como ofereceu a terra seu trabalho, sua dedicação, seu tempo.

Propôs que continuássemos a conversa degustando seus vinhos, um andar abaixo de onde estávamos, no subsolo, na “ sala de cata”, onde são feitas as degustações. Lá, pegou três taças, algumas garrafas de vinho e acomodou-se atrás de um balcão de madeira. E, não consegui me conter, fiz a segunda pergunta clichê para quem produz vinho natural: o que é vinho natural? Como são elaborados?

Ele respirou fundo e disse que fazer vinho natural era filosofia de vida. E, me surpreendeu, de novo, pois já tinha imaginado uma resposta técnica para a minha pergunta. E continuou: se a terra é mantida saudável, sem química, suas características são preservadas – que nada mais é do que o terroir. E se houver sol e chuva na medida, as videiras produzirão frutos concentrados e saudáveis. Depois de colhidas e maceradas as uvas produzem o mosto, que é colocado em tanques para fermentar com suas leveduras naturais. Sem correções, sem outras leveduras estrangeiras, sem sulfitos. A fermentação é monitorada para que o que se deseja e para o que não se deseja obter. Depois esse líquido vai para a garrafa ou para um estágio em barrica de carvalho. É assim que são feitos os vinhos da Bodega Cauzón. Naturalmente.

E abriu o Mozuelo 2014, 100% garnacha direto dos tanques de inox para as garrafas, disse. Enquanto os primeiros goles de vinho desciam pela boca, Ramón contou como os produtores de vinho natural, como ele, baseiam a sua produção. Cuidam da terra sem química, respeitando-a. Conhecem cada etapa, cada processo para a produção de vinho. Trabalham arando a terra, se for preciso, até. E se há um “culpado” para o vinho, esse alguém é o bodegueiro, o vinicultor.

Mozuelo 2014

Ele estava entusiasmado, didático, explicando os pontos básicos do vinho natural. Mas, a despeito disso, eu o interrompi. Foi mais forte que eu. Eu tinha que lhe relatar a sensação estranha que estava sentindo: parecia não haver resistência do meu corpo ao vinho. Como se não houvesse atrito entre um pneu e a estrada para fazer um carro parar. Uma sensação que nunca havia sentido com os vinhos, por melhores que fossem. E bebi mais um gole. Ramón sorriu e disse. O que você está sentindo é porque não tem química, é natural. Desde 1999 o vinhedo é cuidado sem química. A terra devolveu o bom tratamento, produzindo uvas saudáveis e concentradas. Fez a maior parte da tarefa para produzir um bom vinho, disse.

Bebi o restante da taça. Descartar aquela sensação, nem pensar!

Em seguida, Ramón abriu o Pinot Noir 2014, que passou em barrica. Uma cor surpreendente. Limpo e elegante. Enquanto desfrutava da sensação de deixar meu corpo ao sabor do vinho, Ramón contava do compromisso que os produtores de vinho natural devem ter com o meio ambiente, com o uso de produtos recicláveis: vidro e cortiça, nada mais reciclável. O uso otimizado de água e energia. Coerência é fundamental. E, de novo, não descartei uma gota sequer.Pinot Noir 2014

Ramón abriu o Duende 2014, 100 % Shiraz, que disse, foi elaborado com muito capricho. E deve ter sido mesmo, pois estava fantástico. A sensação de simbiose com o vinho era uma coisa nova, além dos aromas e sabores. E ele contou que vinho natural traz sim essa sensação de aromas e sabores limpos que despertam a língua para aquilo que ainda não foi percebido.

Gostei de despertar a língua!IMG_20160514_151754596

Eu não sabia quais eram as perguntas certas a serem feitas e já tinha feito algumas perguntas óbvias. Mas conversávamos porque ambos estávamos interessados não apenas em relatos, informação, perguntas inteligentes, mas em comunicação: ele queria falar, mas também queria ouvir. Ouvir sobre minhas experiências com o vinho. Sobre o Brasil. Sobre os motivos de viajar para conhecer vinhos. Contou que é um brasileiro que faz o desenho de seus rótulos. E nos mostrou, com brilho nos olhos, vários deles, explicando os desenhos, as ideias por trás dos rótulos. Foi depois do que disse sobre leveduras que entendi porque não se deve usar levedura comercial, estrangeira, nos vinhos naturais – apenas as cascas da própria uva: para garantir o terroir, para que o vinho da serra nevada tenha o sabor, o terroir, da serra nevada e não de algum outro lugar onde uma levedura tenha sido produzida.

E finalmente fui apresentada a questão do sulfito: que nunca deve ser adicionado, nem às uvas antes da serem maceradas, nem ao mosto que produzirá o vinho, nem para limpeza dos equipamentos. E foi enfático: é tóxico. É um veneno. Minha amiga, como tivesse acordada de um transe, o interrompeu para contar de algo que lembrara, uma palestra que assistira, anos antes, sobre o processo para produção de vinho. Naquela palestra, o apresentador, enólogo, mostrava uma foto sua, totalmente protegido, aspergindo alguma coisa em um tanque, para ilustrar a etapa de adição de sulfito ao mosto do vinho. Foi quando ela perguntou: se você precisa dessa roupa para colocar o sulfito, o que deve ser usado para quem vai beber o vinho?  Sua expressão de assustada ao fazer a pergunta provocou risos nos outros participantes, que se atropelavam para dizer que não existe vinho, bom, enfatizaram, sem sulfito; que todo vinho tem sulfito. Ela ficou sem graça. Lembrava da situação, da palestra, mas não lembrava da resposta. E nunca mais perguntou sobre o assunto, com receio de ser ridicularizada.

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O sulfito é um bactericida que vem sendo utilizado pela indústria vinícola para: evitar a deterioração do vinho, corrigir imperfeições, retardar o amadurecimento da uva – para que não inicie o processo de fermentação antes de chegar a vinícola. O sulfito está presente em vários tipos de alimento: adicionado para conservação em enlatados, por exemplo, ou gerado de forma natural como resultado da fermentação ou da passificação – frutos secos tem sulfito. A legislação de cada país estabelece uma quantidade aceitável de sulfitos por litro de vinho e que varia com o tipo. Entretanto, sua manipulação é considerada tóxica, exigindo a utilização de roupa protetora.

E essa é a grande mudança de paradigma do vinho natural. Não corrigir o vinho com sulfito. O sulfito aceitável no vinho natural é apenas aquele resultante da fermentação das uvas– que produz vários componentes químicos, entre eles o sulfito.

Entre goles do Duende – ele encheu nossos copos de novo, o dele inclusive – contou que há maneiras de proteger o vinhedo sem pesticida. Que a química reduz os riscos pois corrige o vinho para mantê-lo dentro de padrões comerciais.  Que o vinho natural valoriza o terroir, pois expressa o que há na terra. Que vinho natural é orgânico, mas que vinho orgânico nem sempre é natural. E, que no final de tudo, toda garrafa de vinho, natural ou não, continuará a ser uma surpresa, dependendo de como evolui.

A garrafa seguinte foi um Cauzón 2013, 100% tempranillo e que passou 6 meses em barrica. Um vinho que me fez lembrar que não comia há pelo menos 4 horas.

Cauzón 2013

Então, Ramón deu o golpe final e serviu seu Cauzón Blanco 2013. Um corte de sauvignon blanc, viognier e torrontés. O líquido amarelado não era translúcido como os vinhos brancos que conhecia. E antes que perguntasse pela aparência diferente, ele explicou que o vinho natural não deve ser filtrado, clarificado forçadamente – para isso seria necessário química. A clarificação, quando acontece, é natural. Acontece, ao longo do tempo, resultado dos componentes naturais do vinho.

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Depois de 4 tintos empolgantes, o vinho branco parecia chegar despretensioso. Mas Ramón conhecia seus vinhos e o efeito sobre as pessoas. Depois de dois grandes goles, não havia mais o que falar. Estava ali o melhor do dia. Com todo o frescor que a tarde quente de Graena pedia. Podia ter perguntado o porque da combinação das uvas no Cauzón Blanco: para ganhar acidez, estrutura, mas preferi ouvir o ABBA cantar Dancing Queen, trilha sonora recorrente que ouço quando estou diante de alguma coisa que valha a pena ser lembrada, como o Cauzón Blanco.

“You can dance, you can jive

Having the time of your life”

Parabéns por seus vinhos, disse. E ele propôs um brinde aos que fazem o que amam.

Olhei o relógio. Já conversávamos há duas horas. A visita estava sendo maravilhosa, mas não parou o tempo. Tinha que voltar para Granada ou perderia a visita noturna à Alhambra, marcada meses antes. Hora de ir embora. Não haveria tempo para ver os vinhedos – 4 hectares na face norte da Sierra Nevada.

ingresso

Enquanto Ramón embalava algumas lembranças engarrafadas para nossa volta ao Brasil – um de cada que provamos, mais um Iradei para completar a caixa, reparei que, em uma das paredes de sua sala de cata, havia cartazes de eventos, salões de vinhos naturais já ocorridos colados displicentemente com fita durex. E lembrei das paredes de meu quarto de adolescente, também repleta de pôsteres de cantores e filmes que amava e que queria manter ao alcance da mão, ali na parede. Sem preocupação estética, os cartazes colados na sala de cata, mostravam o quanto Ramón ainda carregava a alma de um jovem que se apaixona por seus ídolos, pelas ideias, o quanto estava envolvido na filosofia de vinho natural. Muito além de apenas produzir e vender vinhos.Sala de Cata

 

Sala de Cata

 

 

 

 

 

Ao nos despedirmos ele disse que ” Se dice lo que se hace, se hace lo que se dice”  se diz o que se faz, se faz o que.  O derradeiro ponto sobre vinho natural que nos apresentaria: honestidade e transparência. Toda a informação pode ser fornecida para comprovar a autenticidade dos vinhos naturais.

No caminho de volta para Granada, com a Sierra Nevada como cenário e sob o efeito das sensações experimentadas pelos vinhos de Ramón, tudo finalmente fazia sentido.  Tinha entrado no mundo dos vinhos naturais por acaso, mas não foi por acaso que a filosofia por trás da produção de vinhos naturais tinha me encantado, me capturado. Olhando de longe, pode até parecer um protocolo de intenções da ONU para um mundo melhor, mas de perto, é o que cada um de nós pode fazer por aquilo que ama, no caso os vinhos. Além disso, os vinhos naturais podiam ser diferentes, às vezes, mas eram maravilhosos.

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Granada é mais que Alhambra! Com certeza.

 

P.S. A visita à Barranco Oscuro ficou para outra estória.

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