Buçaco Tinto Reservado 1992

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Quando: Dezembro de 1999. Um mês para o temido bug do milênio: uma espécie de fim do mundo para computadores e sistemas que utilizavam, para representar datas, o ano com dois dígitos -12/03/45, considerando que todos os anos são do século XX. O problema surgiu com a sobrevida desses sistemas que, acreditava-se, no ano 2000, já não estariam mais em funcionamento – no dia primeiro de janeiro de 2000, esses sistemas entenderiam que a data seria 01/01/00, gerando todo o tipo de problema que envolvesse data: faturamento, juros, rendimento etc. Um caos anunciado, mas que tinha solução: corrigir tudo relacionado às datas e testar antes que o ano 2000 aportasse, tarefa que a equipe de informática, da qual fazia parte, concluiu no primeiro dia de dezembro de 1999. Era hora de comemorar, disse o chefe de equipe que materializou, sabe-se lá de onde, uma garrafa de vinho tinto, rapidamente aberta e servida em copos descartáveis. Não lembro do nome do vinho. Ficou na memória apenas a sensação desagradável de beber, de uma vez, o copo de vinho morno. Um sacrifício para valer o brinde e não desagradar o chefe. E, principalmente, para o sofrimento ser rápido. Meus encontros com o vinho, excetuando-se o tempero para o pernil de Natal, provocavam mais questionamentos que prazer:

  • rascante é qualidade ou parte de um procedimento para deixar minha língua áspera como a de um lagarto?
  • vinho provoca dor de cabeça instantânea?
  • é acompanhamento ou enfrentamento? – o vinho brigava tão ferozmente com a comida, que às vezes tinha que parar de comer.
  • porque dizem que as mulheres adoram o vinho das garrafas azuis?

Feliz com o resultado e talvez com o vinho, o chefe me concedeu as tão sonhadas férias. Era a oportunidade para conhecer Portugal;

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Cenário: Mealhada, Portugal. Situação: eu e meu marido, sentados à mesa do restaurante, entorpecidos após a degustação de um Leitão à Bairrada, acompanhado de algumas taças de vinho. Decisão: abandonar a ideia de seguir viagem até a Cidade do Porto. Dúvida: onde poderíamos pernoitar. Resolução: algum hotel perto de onde estávamos, subindo para os lados da Mata do Bussaco, depois de uma consulta à garçonete.

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Estória: Com as indicações, chegamos a uma estradinha que subia sinuosamente em meio a um arvoredo fechado. Fomos seguindo, meio indecisos, pois não encontrávamos nenhum hotel. Até que a estrada acabou numa espécie de platô, onde estavam estacionados alguns carros. Havia um castelo nesse local, que parecia flutuar, iluminado, sobre a neblina. O que quer que fosse, valeria a pena conhecer. Estacionamos e entramos por uma porta que estava aberta e iluminada. Era a recepção de um hotel! O Bussaco Palace Hotel, um antigo Palácio de caça na serra do Luso, mais precisamente na Mata Nacional do Bussaco. De onde estávamos era possível ver parte dos salões e até uma armadura dourada, da qual destacavam-se dois olhos vermelho-vivos, que pareciam tomar conta da escada que levava ao segundo andar. Ficamos encantados. E talvez por isso, sem perguntar preço, decidimos que era ali que deveríamos passar a noite. Bastava, para isso, que houvesse um quarto livre. E havia!

Assim foi, sem reserva, sem planejamento ou qualquer informação antecipada, que chegamos ao Bussaco Palace Hotel, que foi o último palácio dos Reis de Portugal, transformado em hotel em 1917, considerado um dos mais belos hotéis do mundo.

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Acomodados e depois de um repouso exigido pelo farto almoço, decidimos descer para o restaurante do hotel. Mais para circular pelo lindíssimo salão de jantar do que para saciar a fome: o leitão à bairrada do almoço ainda era uma memória bastante viva. Pelo menos para mim.

Já sentados, depois de folhear o cardápio, disse à garçonete: “O que vocês tem para quem não está com fome? Acho que comi demais no almoço!” Ela, de um jeito que só os portugueses raciocinam, me disse, dura e cordialmente, “Aqui só temos pratos para quem tem fome!”. Sem graça, pedi um consomè de legumes e uma coca-cola. Meu marido, para meu espanto, pediu leitão à Bairrada, de novo. Pedidos feitos, chegou à nossa mesa o escanção – soubemos o nome depois, é claro – com a carta de vinhos. Um instrumento quase inútil para pessoas, como nós, que não conheciam nada de vinhos. Depois de olhar a carta de vinhos por precisamente três segundos, meu marido pediu uma sugestão ao escanção: “Queria beber um vinho típico da região do Bussaco”.

O escanção, visivelmente entusiasmado, disse-lhe que deveria aproveitar a oportunidade para beber um Buçaco, pois eram vinhos elaborados exclusivamente para consumo no hotel, que já encantaram reis, rainhas, chefes de estado, que vinham ao hotel somente para bebê-lo, pois eram vendidos somente no hotel. Ato contínuo, abriu a carta de vinhos e, depois de algum tempo e debate com meu marido, sugeriu um Buçaco Tinto 1992. Meu marido, tomado pelo espírito de algum nobre português, sequer quis olhar o preço do vinho. E concordou com a sugestão. Quando o escanção saiu para buscar o vinho, fui conferir seu preço. “O de 1993 é mais barato”, disse. Ele ignorou meu comentário, fingindo que olhava o salão.

Durante o jantar meu marido bebia o vinho com prazer incomum – ele geralmente parava na segunda taça – me oferecendo para prová-lo a cada gole que bebia. “Esse vinho é muito bom! Você deveria provar.” Tenho que admitir que os vinhos que até então bebera em Portugal eram bons. Mas, nada que tenha me entusiasmado para beber mais de uma taça. Me mantinha fiel à coca-cola, mas sua insistência e seu deleite estavam me deixando curiosa.

E para meu espanto, o garçom serviu o que restava da garrafa, pouco mais que um gole. Meu marido estava prestes a beber uma garrafa inteira de vinho! Alguma coisa diferente estava acontecendo. E eu não queria ficar de fora. Olhei para os lados em busca da garçonete: ela não estava no salão. Respirei aliviada: não queria ser vista bebendo vinho depois que disse “Vinho? Nem pensar!”

Peguei a taça e bebi o último gole de Buçaco.

A mudança: O vinho era diferente de tudo o que já tinha bebido com o rótulo de vinho. Parecia uma lembrança do futuro. Envolveu minha boca e aqueceu meu coração. Um cheiro – eu não chamava de aroma – magnético, se é que pode ser magnético: eu queria ficar com o nariz dentro da taça aproveitando o restinho que não dava para beber. Produziu uma fome instantânea de algo que ainda não tinha comido. E eu nem estava com fome! Tentei falar, dizer o que estava sentindo, mas eram tantas novas palavras conectando-se em minha mente que não consegui construir uma frase. Sensações novas que não tinham sido nomeadas dentro de mim. Eu só sorria. Era a primeira vez que um vinho me fazia pensar. Não só pensar em como foi elaborado: os vinhedos, as uvas, o processo. Pensar no motivo de ser tão diferente de tudo o que já bebi com o rótulo de vinho. Pensar em como me fez gostar de Portugal. Pensar nas pessoas por trás daquelas garrafas, o que fazem, no que acreditam. Pensar em outro momento para bebê-lo novamente. Pensar no que está no entorno daquele vinho. O hotel, seus funcionários, a mata do Bussaco, Coimbra. Mealhada. Os leitões. Pensar na garçonete. Imaginá-la rindo de mim achando que iria resistir aos vinhos do Buçaco. Pensar em cada gole de vinho não bebido. E eu nem sabia que os vinhos do Buçaco são ícones de Portugal, raros, venerados e capazes de durar muitas décadas.

Como num passe de mágica, eu me descobri encantada com vinhos. Apaguei de minha mente as experiências ruins. Minha estória com vinhos começava bebendo um gole roubado de Buçaco tinto.

Conclusão: Ficamos mais um dia no hotel, para conhecer um pouco sobre os vinhos do Buçaco: são vinhos produzidos pelo hotel para consumo de seus hóspedes. Uma decisão de Alexandre de Almeida, o dono do hotel, no início do século XX, para diferenciá-lo, como ocorria em outros hotéis de luxo na Itália e França. Sua produção é realizada de modo tradicional, em lagares abertos, pisa a pé, com uvas da família do proprietário do hotel, no sopé da Serra do Bussaco, e de uvas compradas de outros produtores na Bairrada e no Dão. Na adega, que fica no próprio hotel, há vinhos da década de 20.

Caminhamos pelas trilhas em volta do hotel, na mata do Bussaco. Admiramos Coimbra, pequena, da Porta de Coimbra, uma das saídas do hotel. E, é claro, bebemos uma garrafa de Buçaco. Dividida em partes iguais com meu marido durante o almoço. E viajamos, sentados à mesa, pensando em tudo o que havíamos aprendido naquela manhã.

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Ao deixar o hotel, percebi que os vinhos do Buçaco engarrafavam vidas e estórias de um Portugal que sequer imaginava existir. Depois do primeiro Buçaco, deixo que os vinhos me guiem, deixo que mostrem por onde seguir.

Em 2013, voltei ao Palace Hotel Bussaco. No restaurante, a mesma garçonete que me atendeu em 1999.

 

P.S. Não é falha de memória. Só os vinhos são escritos com ç. A mata e o hotel são escritos com ss.

2 ideias sobre “Buçaco Tinto Reservado 1992

  1. Que leitura deliciosa Liliane!
    Viajei de novo ao Bussaco. Sua descrição da estradinha sinuosa, o platô, o palácio (recepção) iluminado, a armadura de olhos brilhantes… Só faltou a sensação de castelo assombrado, esta, de minha autoria.
    Tive a certeza que o retorno ao Bussaco é obrigatório, para buscar o que faltou, o Buçaco.
    Não lerei mais nada por hoje. Vou degustar o seu “blog” como a um bom vinho, se é que sei o que é isso…

    • Olá Luciana. Obrigada pelo comentário. Fico feliz do texto ter sido o motivo de boas lembranças. E, não deixe de provar o vinho do Buçaco quando estiver por lá. Espero que os outros textos produzam boas sensações também.

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