Vinhos do Peru: conhecendo Pepe Moquillaza, um narrador de histórias líquidas

Os vinhos me guiam, me indicam por onde seguir para conhecer lugares, pessoas, histórias, cidades e, é claro, vinhos. Gosto de conversar em torno do vinho. Mas, se o vinho é apenas um pretexto para conversar, é ainda melhor.

A motivação

Foi num sábado, na iminência de preparar a caipirinha que acompanharia a feijoada que seria servida no almoço, já com os limões galegos na mão, que me deparei com o bar carente de cachaça. Também não havia vodca ou rum, substitutos usuais para misturar com os limões. Tentando buscar uma solução que não fosse a clássica “se não há solução, o problema está solucionado: sem solução” – e sem caipirinha – notei uma embalagem esquecida no bar como um enfeite, um presente que já não lembro quem deu. A caixa dizia Pisco. E que não estava disfarçado de índio INCA, como aquelas garrafinhas que os amigos, que visitaram Machu Picchu, trouxeram como lembrança.

pisco_reservado1-1Curiosa, tirei o pisco da embalagem. E, surpresa, constatei que o líquido era transparente como a cachaça, a vodca, o que seria já meio caminho para se parecer com uma caipirinha. Misturei os limões macerados no pilão, com gelo, açúcar e uma dose generosa de Pisco. Na aparência era uma caipirinha. Mas na boca não parecia uma caipirinha, nem uma caipiroska tão pouco. Mas, para quem não conhecia pisco, o resultado ficou muito bom. Dei outro gole. O Pisco parecia ter suavizado os limões galegos. O álcool, que definitivamente estava presente, pois o rótulo da garrafa ostentava 48 graus GL, não se exibia e parecia tornar a bebida mais doce do que a quantidade de açúcar que eu havia colocado. E sim, o que me intrigava era que eu sentia no nariz um aroma que me lembrava vinho. E tudo que lembra vinho me atrai –  os vinhos me guiam, como eu já mencionei. O aroma de vinho não seria surpresa se eu soubesse que o Pisco é elaborado a partir do mosto de uvas, como o vinho! Coloquei a jarra da caipirinha de Pisco no bar e fui pilotar meu smartphone. Já havia passado da hora de saber mais sobre o Pisco.

Pisco é um destilado de mosto de uvas, que também é a base para a produção de vinho. Foram os espanhóis que trouxeram as videiras para a América recém conquistada, para produzir vinho e assim dotá-la de artigos que estavam habituados a consumir na Espanha. E foi no Peru onde isso aconteceu primeiro. As condições favoráveis do solo e do clima permitiram produzir muito vinho, o que transformou o Peru no principal produtor de vinhos da América nos séculos XVI e XVII. Era tanto vinho que resolveram destilar parte do mosto produzido no Peru. Esse destilado era exportado pelo Porto de Pisco, daí o nome Pisco. O Peru não é hoje um país reconhecido pela sua produção de vinhos como são, por exemplo, o Chile e a Argentina, porque vários fatores ao longo dos séculos – terremotos, proibições de exportação, pragas, guerras – levaram à diminuição da cultura das videiras. Somente no século XX, o incentivo à produção de Pisco, como um produto típico peruano, acabou por aumentar e melhorar a produção de vinho.

Larguei o smartphone. Bebi mais uns goles da mistura de Pisco e limão. Olhei a garrafa de Pisco e, finalmente, entendi que, mais uma vez, tudo havia sido engendrado no universo paralelo onde os vinhos me orientam por onde seguir. Descobrir o Pisco, um destilado nascido como nascem os vinhos, do mosto de uvas, há tanto tempo esquecido no bar, me fez enxergar os vinhos do Peru!vinhoperu

Esbarrando no Peru de novo

No final de semana seguinte, numa festa, o tema vinhos surgiu na conversa com pessoas que acabara de conhecer. Aproveitei para contar a história do Pisco, da minha ignorância sobre o assunto e que, sim, há vinhos no Peru. Foi quando uma dessas pessoas, interagindo com o assunto recém lançado à roda, disse que seu pai era peruano e por isso já conhecia os vinhos do Peru, onde vai com frequência para rever parentes. A partir daí, a conversa enveredou para o Peru. Falamos de vinho, das belezas do país, do povo, da comida, de Pisco, dos chefs famosos. E concluímos que o Peru é muito mais que Machu Picchu.

Coincidência, o assunto dos vinhos do Peru ter surgido duas vezes em uma semana? Só se eu não acreditasse que os vinhos me guiam.

Destino: Peru

Eu tinha que conhecer os vinhos do Peru! Já estava convencida! O que eu tinha que fazer, depois daquela decisão, era descobrir para onde ir, o que ver, o que e quem conhecer. Sem nunca ter ouvido falar de vinhos do Peru, a web não era o caminho mais fácil, mas parecia ser o único caminho que poderia me levar aos meus desejos. Soprei no ouvido do meu guru Google minhas palavras de ordem para encontrar os vinhos naturais peruanos, minha já não tão nova paixão: vinhos naturais, Peru, orgânico, biodinâmico, artesanal, típico, leveduras indígenas. Com o que o Google me devolvia, fiz outras combinações: América, rotas de vinho, uvas criollas, leveduras indígenas, uvas pisqueras. E assim, fui encadeando minha mente com a engine do Google. Depois de algum tempo de pesquisa, meio desapontada, concluí que a maior parte da informação que obtive não me interessava: grandes bodegas, indústrias de vinho, vinhos de castas francesas, italianas, produtores europeus. O que me interessava, o vinho natural, o vinho típico peruano, reduziu-se, depois de muita pesquisa a um nome: Pepe Moquillaza.

Se Pepe Moquillaza era o caminho e o meu destino no Peru, era preciso descobrir quem era esse produtor. Para saber o que seria possível conhecer e como fazer contato.98595

Quem é Pepe Moquillaza?

Pepe Moquillaza é figura conhecida no Peru. É embaixador do Peru para o Pisco. Por conta de um ano sabático – precisava distanciar-se por um tempo dos assuntos com que lidava num alto cargo público – decidiu levar adiante o sonho de fazer seu próprio Pisco, como já havia visto produtores artesanais fabricarem na sua Ica natal. E o ano sabático se transformou no seu projeto de vida, pois vem fazendo o Pisco Inquebrantable desde 2003, reconhecido como um dos melhores do Peru. O sucesso de sua empreitada, o levou a acreditar que as uvas pisqueras não poderiam ser limitadas ao pisco, pois, na época das colônias, eram a base da produção de vinho também. Foi assim que surgiu o Pepe produtor de vinhos naturais, pois os elabora como o pisco, de modo artesanal, sem intervenções, com fermentação natural. Uau! Que história.

Porque conhecer Pepe Moquillaza?      

A oportunidade de conhecer vinhos que expressassem a tipicidade do Peru, como os que Pepe Moquillaza produzia, seria um bom motivo para ir ao Peru.

Conhecer Pepe Moquillaza, depois de saber sua história, seria um ótimo motivo para ir ao Peru.

Mas conhecer um narrador de histórias líquidas, como Pepe Moquillaza se definiu em sua página no facebook, tornava imprescindível a viagem ao Peru, Eu precisava conhecer o homem que definiu com poucas palavras seu papel no mundo do vinho. E, de quebra, me fez entender o meu papel no mundo do vinho: sou uma ouvinte dessas histórias líquidas que produtores, como Pepe, contam.

Decidi mandar um e-mail para Pepe Moquillaza me apresentando como uma apaixonada pelos vinhos naturais, que gostaria de conhecer seus vinhos. Ele, gentil, rapidamente concordou!

Convidei a amiga de todos os vinhos para conhecer o Peru de Pepe Moquillaza. Contei tudo, desde o Pisco na estante de casa. No fim, mais uma ansiosa por conhecer o narrador de histórias líquidas.

No Peru, Lima

Chegamos eu e minha amiga em Lima já tarde da noite. O motorista do táxi seguiu pela via costeira. O mar, distante poucos metros, parecia não estar lá, escondido pela neblina densa, que envolve Lima boa parte do ano. Pepe Moquillaza, no dia seguinte, ao vivo e a cores, deu algumas sugestões de onde comer e do que fazer até que nos encontrássemos à noite no La Gastrónoma, quando, livre de seus afazeres, nos apresentaria seus vinhos.

As sugestões de Pepe: para entrar no clima do Peru

Fomos, eu minha amiga, andando por Miraflores até o Costanera 700, a sugestão de Pepe para o almoço, um restaurante onde as gastronomias peruana e japonesa se fundem. É assim que está descrito no site do restaurante. E é exatamente isso que encontramos no cardápio, que olhamos por curiosidade, porque pedimos o que Pepe nos sugeriu: ceviche costanera, causa pulpo, batayaki de lagostins e Pisco Sour, com Pisco Três Generaciones. Pedimos, mesmo sem saber exatamente o que era causa e batayaki! Mas as sugestões de Pepe foram maravilhosas: tudo leve, fresco, delicioso e… perfeito com o Pisco Sour. Ah, o batayaki é um tipo de cozimento à base de manteiga e alho, servido na chapa quente e a causa era um escondidinho de batata.

 

Depois desse começo, aclimatadas ao Peru, saímos para caminhar pela orla de Miraflores, repleta de lindos parques e malecons. Fomos até a Ponte dos Suspiros em Barranco. Um lugar que merecia mais tempo para ser explorado, não fosse o iminente encontro com Pepe.

La Gastrónoma ou o primeiro encontro com os vinhos e Pepe

Depois de um dia caminhando por Miraflores, achávamos que conhecíamos a cidade. A La Gastrónoma ficava na Calle Libertad 439.

“Fácil chegar lá: a rua começa na Avenida José Pardo, por onde passamos duas vezes hoje.” – disse minha amiga, confiante.

Saí do hotel, seguindo minha amiga, em direção à Calle Libertad. Depois de percorrê-la duas vezes sem encontrar o número 439, impaciente, saquei meu smartphone, acionei o Google Maps e descobri que o número que procurávamos ficava num trecho da Calle Libertad que fazia um ”desvio” depois que, aparentemente, acabava.

“Eu encontrei a Calle Libertad. Não tenho culpa, se tem um pedaço dela que se esconde.” – disse minha amiga – não admitindo sua derrota para o aplicativo.

Quando chegamos, Pepe nos esperava na varanda do La Gastrónoma, que é uma loja o

nde pode-se encontrar produtos orgânicos e típicos do Peru: vinhos naturais, pães de fermentação natural, cafés, chocolates, cervejas, queijos artesanais e comidinhas para petiscar. E, é claro, os vinhos que Pepe Moquillaza produz. Naquele ambiente agradável, confortavelmente acomodados, contamos a nossa história e o que soubemos da história dele pela internet.

Os vinhos de Pepe

Tudo começou com o Pisco. Pepe é de Ica, região onde é produzida a maior parte do pisco no Peru e onde está localizado o distrito de Pisco. Naquela região, é natural que o Pisco faça parte da vida das pessoas: na mesa, produzindo, degustando, conversando. Como muitos iquenhos, Pepe sempre sonhou em produzir seu próprio pisco. Quando surgiu a necessidade de parar por um ano –o ano sabático, ao deixar um alto cargo público – resolveu produzir seu Pisco de quebranta, o Inquebrantable, para resgatar a tradição da produção de Pisco e valorizar a uva quebranta. Porque a quebranta? Simples: é uma variedade que sofreu uma mutação – de negra criolla e negra mole, trazidas na época em que o Peru era ainda uma colônia – para se adaptar ao terroir desértico de Ica, ou seja, uma uva autóctone do Peru. Uma uva resistente: resistiu à filoxera e vem sendo utilizada como porta-enxerto, além de produzir em pé franco. Era a uva para produção de vinho e Pisco, à época da colônia. Então, se é para resgatar a tradição, a essência do Peru, deve-se utilizar a quebranta, argumentou Pepe.

Com técnica – colheita manual, fermentação natural e longa, botijas de argila – foi possível mostrar o potencial da quebranta, para ele, a rainha das uvas no Peru. O ano sabático acabou, mas a produção do Inquebrantable continuou, e transformou-se na sua principal atividade.

Pepe é hoje um produtor consagrado de Pisco. O Inquebrantable está presente nos melhores restaurantes do mundo: Can Roca, em Barcelona e, ali no Peru, no Central de Virgílio Martinez. Nos seus Inquebratable, está engarrafada a essência do Peru.

E os vinhos? Quando começou a pensar neles?

“Porque não se fazem vinhos, como se faziam na época das colônias? Porque não se fazem vinhos de uvas coloniais? Porque não se pode fazer vinho de quebranta, por exemplo? “

Sua resposta a essas perguntas foi ação: produção de vinho de quebranta.

Mas conversar com vinho seria muito melhor. Estávamos no La Gastrónoma para isso. Para conversar com Pepe em torno dos vinhos que faz com seu sócio Camilo Quintana, na Bodega El Quintanar, em San Juan de Ihuanco, Cerro Azul, província de Cañete. Um desdobramento da parceria para produção do pisco Inquebrantable, desde 2003.

O primeiro vinho que nos apresentou foi o Albita, um vinho laranja, resultado de um corte de duas uvas pisqueras; Albilla e Itália. Pepe explicou que para domar as uvas pisqueras e fazer um vinho laranja, fez a colheita antes que amadurecessem completamente. Com isso, teriam mais acidez. Com essas uvas, fez maceração carbônica. Para a cor laranja, deixou as cascas em contato com o mosto por 60 dias e depois foram para as botijas de argila.

Com o Albita nas taças e a garrafa circulando por nossas mãos, para conferir os rótulos, tirar fotos, sentimos o vinho e bebemos nosso primeiro gole. Enquanto Pepe analisava seu vinho, eu me preparava para dizer que nem sempre encontro as palavras certas para expressar o que estou sentindo, mas ali era fácil perceber a fruta, o aroma doce da passa. O que poderia parecer oxidado, caía bem.  O vinho estava perfeito para a noite singular que se iniciava. Contei que no ano passado, quando estive em Mendoza, os vinhos laranja dos Michelini me deixaram fascinada e que virei fã: dos laranja e dos Michelini. E que o vinho de Pepe também me dava essa sensação. Foi quando ele contou que tem um projeto com Matías Michelini, que juntos produzem vinho no Peru e aguardente de vinho em Mendoza. Ambos com a marca MIMO, de Michelini e Moquillaza.

De novo, não era coincidência. São os vinhos que me guiam…

E o Albita foi conduzindo a conversa, permitindo desencavar “Pantaleão e as Visitadoras”, filme que me apresentou o Peru e que me transformou numa leitora de Mario Vargas Llosa.  Pepe disse, então, que o ator principal do filme agora é ministro da cultura! Procuramos sua foto na web. E concordamos que envelheceu bem.

Entremeado com queijos artesanais peruanos, de cabra, de vaca, de leite cru, a garrafa de Albita foi se esvaziando, alavancando a conversa, ora como protagonista, ora como coadjuvante, trazendo assuntos que só se consegue associar a um vinho singular como o Albita.

Quando a garrafa se esvaziou, ficamos tentadas a repetir a dose, mas Pepe queria que provássemos seu Quebrada de Ihuanco, que é o primeiro vinho que elaborou.

Enquanto o vinho era aberto, Pepe contou que nem tudo para a quebranta era sucesso, na produção de vinhos. Os tintos de quebranta tinham pouca cor, pouco corpo, pouco aroma. Não eram o que se esperava de um vinho tinto.

O problema não era do potencial da quebranta. O problema era enxergá-la e vinificá-la como uma uva tinta, quando é uma uva gris! Seus vinhos não poderiam ser tintos, e não estavam aquém do que se poderia obter, mas como um clarete, refletiam em cor e aromas a essência da uva, de Ica, do Peru. Com esse novo olhar – vinhos que refletiam a essência do Peru – percebeu-se que seria possível escoltar a alta gastronomia peruana, que também busca a essência do Peru. Uma visão surpreendente, que encantou chefs de restaurantes, como o Central de Virgílio Martinez, que praticam essa alta gastronomia.

Mas era hora de provar o Quebrada de Ihuanco. A garrafa que estava à mesa era de 2013, de uvas de pé franco. Um vinho fresco, com um aroma de mel que ficava na boca. Delicioso. Pepe ressaltou que o casamento com a alta gastronomia peruana acontecia, porque seus vinhos não lhe tapam. Gostei do verbo. Tapar. Seus vinhos deixam que a comida se exiba! São acompanhantes que só fazem destacar as sutilezas desse tipo de gastronomia.

Pepe diz que todo vinho conta uma história. O Quebrada de Ihuanco vai contar durante muito tempo a história de uma uva criolla que saiu de Ica para as mesas de restaurantes estrelados.

 

 

Entre goles de Quebrada de Ihuanco, fomos ficando cada vez mais encantadas com a visão de Pepe para o mundo do vinho e do pisco e de como podem ser atividades sustentáveis para a população peruana.

A noite terminou com esses dois vinhos. Combinamos de provar os vinhos que Pepe elabora com Matías Michelini, os MIMO, em Ica, na hacienda onde são produzidos.

Dali saímos andando por Miraflores. Apreciando o movimento das pessoas. Pepe fez questão que provássemos o sorvete de lúcuma, fruta típica de Ica. Valeu a pena!

 

A Viagem para Ica

“Você não acha que está levando muita coisa para ficar apenas uma noite em Ica?, disse para minha amiga enquanto preparava sua mala para a viagem à Ica

“Nunca se sabe!”

“Mas porque você vai levar um canivete?”

“Podemos precisar.”

“Em que situação exatamente?”

“Descascar uma fruta…”

“Nós vamos de carro até Ica e lá vamos nos hospedar num hotel. Já considerou nesse contexto a necessidade de um canivete?”

“O carro pode enguiçar. Podemos ficar na estrada sem comunicação. Sem ter o que comer, teremos que nos alimentar de frutas que encontrarmos na mata.”

De carro, fomos deixando o trânsito pesado de Lima, cortando pela Panamericana Sur, uma cidade diferente daquela que havíamos percorrido nos últimos dias. Ao lado da estrada, enquadradas pela janela do carro, mimetizadas à montanha de areia marrom, casas simples de madeira espalhavam-se até desparecem na neblina de Lima.

Seguimos. Ao longo da estrada tranquila, as montanhas de areia foram ficando menos habitadas. E o céu, cada vez mais limpo.

Primeira parada

 

Paramos para comer pão de lenha. Um com manteiga, outro com azeitonas pretas e café.

Simples, frescos, quentes e comidos com prazer.

No caminho, plantações de mandioca. Criação de galinhas. O mar longe. Areia. E um sol que dá a Pepe a certeza que já está em Ica.

Segunda parada

Chegamos a Pisco, epicentro de um terremoto, que há dez anos destruiu parte de uma cidade, que está intacta na memória de Pepe. Ele vai mostrando o que já não está lá, as construções retas, parecendo caixotes, que deram lugar aos casarios coloniais e os lugares onde a reconstrução ainda acontece.

 

 

 

Nosso destino –  para o almoço – era o restaurante As de Oro’s.

Lá, o pescado fresco é a grande atração.

Comemos ceviche, choclos, ostras. Foi lá que bebi minha primeira chicha, bebida de milho vermelho com canela, típica do Peru. Tudo fresco e saboroso. Levíssimos, voltamos para a estrada.

 

Terceira parada

No porto de Pisco, os piscos, como são chamadas as aves em quéchua, a língua dos antigos habitantes do Peru, não decepcionaram. Ainda voam por ali para contar que é daquele porto que saía a aguardente de vinho que em sua homenagem virou Pisco.

 Quarta Parada

Seguimos até Paracas. Pepe queria que bebêssemos um Pisco Sour em Pisco. Escolheu um lugar on

de a preparação fosse tradicional, o Hotel Paracas, na costa do Pacífico Sul.

 

 

 

Observamos o barmen preparar o coquetel: limão, pisco, clara de ovo, açúcar e um amarguinho. Minha amiga vidrada no liquido que ele despejou no copo admitiu que estava apaixonada pelo Pisco Sour. O coquetel estava perfeito!

 

 

 

 

No caminho, uma botija de argila meio enterrada na beira do mar. Um adereço quase cenógrafico para lembrar dos métodos de fermentação de pisco.

 

Quinta parada

Chegamos ao hotel El Carmelo, onde nos hospedaríamos. Uma antiga hacienda onde também se produz pisco. Na hora que chegamos acontecia uma festa para promover o Pisco entre representantes de turismo de alguns países da América. E nem é preciso dizer que havia muito pisco, pisco sour, chilcano, música e dança. Ficamos um pouco, mas ainda haveria uma última parada naquela noite.

 

Sexta parada

Do hotel fomos para o Oásis de Huacachina, Lá no meio de toda aquela areia há um lago cercado de árvores. Em volta restaurantes, hotéis. Andamos sem pressa aproveitando a noite.

 

O dia tinha sido maravilhoso. Mas, de volta ao hotel, eu só queria tomar um banho e dormir. Minha amiga, animada, queria ir para a festa do pisco que acontecia no hotel.

”Deixa de ser desanimada: não combina com nossa road trip Louise” – ela disse, numa alusão ao filme Thelma e Louise.

Lembrei-lhe que no filme a Louise cometia um crime. Que poderia se repetir nessa road trip por Ica, caso continuasse me impedindo de dormir.

Ela saiu batendo a porta e voltou alguns minutos depois. A festa havia acabado.

Hacienda Quilloay: onde nascem os MIMO 

No dia seguinte, nosso destino era conhecer a Hacienda Quilloay, onde Pepe está elaborando vinhos em parceria com Mathías Michelini – produtor do Valle do Uco em Mendoza: os MiMo (MIchelini e Moquillaza), Em Mendoza, os dois produzem aguardente de vinho.

No caminho, antigos caminhões, muros de pirca, rústicos, de pedra, como faziam os incas.

A Hacienda Quilloay é um condomínio de terrenos e casas com que possui uma antiga bodega para produção de pisco com botijas de argila artesanais e fermentadores de cimento (40, cada qual de 1800 litros) e 1 hectare de vinhas, que podem ser utilizadas pelos proprietários do condomínio.

 

 

 

As instalações dessa bodega sofreram, como muitas de Ica, com o terremoto de 2007, mas está num processo de recuperação e reconstrução. Percorremos a bodega, andamos sobre os tanques de cimento, enquanto Pepe nos contava sobre a parceria, de suas viagens à Argentina, para produzir aguardente de vinho com Mathías Michelini.

 

 

A conexão desses dois renomados produtores foi o resgate das uvas autóctones e, com certeza, os inusitados vinhos elaborados de uma típica uva pisquera. Quem não se encantaria pela história dos vinhos de Pepe Moquillaza?

Ali, na bodega, os Mimo existem em todos os estágios: nos tanques, depois de macerados; nas botijas; nas barricas e já engarrafados. Pepe, cuidadoso, conferia cada detalhe. São três, os vinhos produzidos na parceria: o Tinto de Ica, um corte de quebranta e moscato rosso, que fica 8 meses em barrica usada e dois laranjas: um de Itália – uvas dali mesmo do condomínio – e o outro, de torrontel, que passa 4 meses nas antigas botijas de barro da bodega.

Conforme prometido, Pepe abriu os Mimos, para que provássemos. Todos, muito intensos, com muita fruta. Os laranjas são apaixonantes. Uns goles daquele vinho e um filme de nossa viagem, desde Lima até a Ica passou pela cabeça. Era mais do que o terroir de Ica que se percebia na boca, no nariz.

Era uma viagem pelas emoções e ideias de Pepe Moquillaza, espelhadas em cada detalhe: os lugares que fez questão de nos apresentar, os rótulos dos vinhos, na bodega centenária que quer recuperar, no condomínio que propõe um estilo de vida sustentável, nos métodos de fazer pisco, nos nomes dos vinhos que já dizem ao que vem.

 

 

 

 

Quase hora do almoço. Hora de voltar para Lima também. Fomos embora e almoçamos no restaurante da estação, a comida típica de Ica. No caminho de volta, não houve tantas paradas. Aos poucos, o sol e o céu limpo de Ica foram cedendo a vez para as brumas limenhas.  Apesar do Peru ser mais que Machu Picchu, não resistimos e fomos conhecer a cidade Inca e Cusco.

 

Na volta ainda encontramos Pepe outras vezes em Lima. Para almoçar, para andar pela orla de Lima, para conversar. No El Gran Combo, restaurante de Gonzalo Pajares, onde nos deliciamos com um lomo saltado, flambado no pisco, vimos Pepe Moquillaza defender o pisco como um produto peruano para uma TV local. Por fim, Pepe nos brindou com uma dose de seu Inquebrantable.

 

No aeroporto de Lima

A viagem ao Peru nos permitiu não só conhecer a cultura em torno da quebranta, mas alguém que tem uma causa pela qual acordar todos os dias: Pepe Moquillaza. Sua causa é o Peru. O Pisco e os vinhos são suas paixões e suas ferramentas.

Ah, minha amiga, apegada ao seu canivete, colocou-o em sua bagagem de mão, sabe como é, para ficar mais perto, esquecendo que é um item proibido neste tipo de bagagem. Ao passar pelo raio x, o canivete se mostrou e sorriu para a funcionária do aeroporto  Em seguida, minha amiga viu seu canivete ser arrancado para sempre de seu convívio. Ele ficará em Lima. Para sempre. Desconsolada embarcou para o Brasil. Mas ela vai superar.

 

 

Beber para esquecer… ou para lembrar!

Danuza cantava “Cheia de charme” com Guilherme Arantes. Ela, na sala de sua casa. Ele, na tela do computador. A coreografia que seu corpo executava era uma espécie de dança do ventre contida. Com essa dancinha esquisita, foi até o armário onde guardava bebidas. De lá, pegou uma garrafa de vodca. E continuou a cantar e dançar, com a garrafa nas mãos.

“Quando a vi, logo ali tão perto…”

No meio de sua cantoria ouviu a campainha tocar três vezes seguidas. Danuza, que não esperava nenhuma visita, apressou-se para desligar o computador e silenciar Guilherme Arantes. Do outro lado uma impaciente Paula gritou:

“Sou eu, Paula.”

danuza_em_susto2Atordoada, Danuza, que ainda estava com a garrafa de vodca na mão, correu para colocá-la de volta no armário, antes de abrir a porta.

“Sua dupla ficou muda?” disse Paula, ao entrar mancando no apartamento de Danuza.

“Dupla?”

“Guilherme Arantes! Ou acha que não ouvi você cantando? Aliás, não precisa pensar em nenhuma desculpa, porque eu não vou perguntar porque você estava ouvindo Guilherme Arantes!”

Danuza ameaçou falar, mas Paula só havia pegado fôlego para continuar.

“E antes que você me pergunte como estou, e a gente consuma da nossa existência uns 5 minutos de conversa fiada, vou ser direta: eu vim em busca de companhia para beber. Eu preciso beber! Tô precisando relaxar… E não estou aberta a sugestões tipo dar uma corrida, por motivos óbvios – e apontou o pé inchado – ou ver uns episódios de Modern Family…”

Paula estava visivelmente irritada. E se largou sobre o sofá. Enquanto se ajeitava em silêncio Danuza aproveitou para transformar o monólogo em conversa.

“Oi para você também…”

Mas o monólogo continuou…

“Meu dia foi terrível! Torci o pé correndo para entrar no elevador do trabalho.  Em seguida, antes que eu bebesse um café, meu chefe, ignorando a transformação de meu pé numa pata de elefante, me pediu para acompanhá-lo numa reunião que começou às 9:00h. A sala, lotada, tinha um único ar condicionado que não fazia nem cócegas no suor que meu corpo teimava em produzir. Às 16:00 horas a reunião terminou. Eu estava com o pé doendo, com fome – é preciso dizer que não houve intervalo para o almoço? – e suada. Resolvi ir embora e peguei um táxi para chegar mais rápido em casa. Faltando uns 500 metros para chegar à minha rua, o táxi parou no sinal, mas o carro que vinha atrás, não.  Que susto! Mas ninguém se machucou. Os motoristas saíram para aquela cena de praxe: olhar o carro, fazer aquela cara de reprovação, trocar telefones. Tudo normal. Mas depois de 15 minutos de discussão resolvi deixar o táxi e seguir andando.”

“Dia cheio…”

“Mas, calma, não acabou! Quando eu achei que nada mais poderia acontecer, vi, na minha rua, o caminhão da companhia de luz. Mais à frente, meu prédio: o único da rua completamente apagado. Não tive coragem de perguntar o que aconteceu ou quando a luz seria restabelecida. Diante dos 17 andares a serem vencidos com 1 pé e meio, eu me rendi. Vim pedir asilo da minha vida. E preciso beber!”

“Terminou? É a minha fala agora? Já entendi! Você quer beber para esquecer o dia de hoje! Não vou tentar lhe convencer do contrário. Aliás…acho que sei o que você precisa: uma vodca que eu ganhei há alguns anos…”

Enquanto Danuza ia em direção ao bar para pegar a vodca que havia acabado de guardar, Paula se levantou e foi mancando até a adega que guardava os vinhos de Danuza. Abriu a porta e pegou um vinho. Parada, com a porta da adega aberta, examinava o rótulo da garrafa.

adega

“Acho que eu prefiro vinho, Paula. Podemos beber um desses…”

Diante do estado de ânimo da amiga, Danuza percebeu que a vodcca ficaria para outro dia. Resignada, concordou.

“Se você prefere vinho, tudo bem, Vou pegar umas taças na cozinha.”

Paula colocou o vinho que estava em suas mãos de volta na adega. Tirou outra garrafa, examinou e devolveu também. Parecia insatisfeita com as garrafas que havia examinado. Então, agachou-se e colocou a mão o mais fundo que pode na adega. Quando Paula voltou, ela estava sorrindo com uma garrafa na mão.

“Olha se não é o destino: escolhi sem ver, um vinho que estava lá no fundo. E o que apareceu? Quinta da Pellada! É a minha cara hoje: pelada diante da realidade. Vulnerável. Exposta. Lembra da estória do homem nu do Fernando Sabino: perseguido, humilhado só porque foi, sem roupa, pegar o jornal na porta de casa…”

Danuza largou as taças em cima da mesa de centro e avançou em direção a Paula.

“Você é um enigma a ser desvendado: não entendi como o seu cérebro juntou Fernando Sabino, Quinta da Pellada e esse seu dia esquecível! Por isso não posso nem discordar! A única coisa que eu tenho para lhe dizer agora é: nem ouse pensar em abrir o Quinta da Pellada! Esse vinho não é para relaxar! Escolhe outro. Tem vinhos ótimos aqui.”

Danuza tirou o vinho das mãos de Paula.

“Caramba! Vinho não é para beber com os amigos? Não é o que dizia o Mário Quintana?”

“É isso que dá ler tudo na diagonal! Ele disse: por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente, aquele que tu bebes calmamente com o teu mais velho e silencioso amigo…. “

“Um dia você ainda vai admitir que decora essas coisas para fingir que tem memória fotográfica?”

“Continuando. Na minha interpretação: qualquer vinho fica maravilhoso quando a gente bebe com um velho amigo. Por isso não precisamos beber o Quinta da Pellada. Como já somos velhas amigas, qualquer vinho serve. Tem tanto vinho na adega. Escolhe outro!”, disse Danuza, já sem paciência.

“Sim, podemos beber outro vinho. Mas agora eu fiquei curiosa: por que eu não posso beber esse vinho? È muito caro, produção limitada?”

“ Não! Nada disso!”

Paula de braços cruzados esperava uma explicação. Danuza relutante, continuou.

“É que eu tenho uma relação, digamos, especial com esse vinho.”

Paula, com raiva, disse:

“E que nunca me contou! Que velha amiga é essa que me esconde seus relacionamentos proibidos? Mais uma para o dia de hoje!”

“Deixa de ser dramática. E quem disse que era um relacionamento proibido? Disse que era especial!”

“Posso até ouvir Mario Quintana com uma nova citação a respeito do vinho: você vai descobrir um amigo falso quando um vinho especial lhe sonegar e uma fofoca antiga não lhe contar. Nessa ordem.”

“Antes de você atormentar a alma do Mario Quintana com mais uma pérola, eu conto. Aliás nunca contei porque não surgiu a oportunidade. Não há nenhuma regra que estabeleça que velhas amigas tem que contar tudo de suas vidas.”

Ela faz uma longa pausa, como quem está refletindo, e resolve contar.

“Bem, a estória é a seguinte; Há alguns anos, estava em Portugal e resolvi visitar a Quinta da Pellada, uma vinícola conceituada no Dão. A viagem de carro já teria valido a visita: poder olhar da janela do carro a Serra da Estrela ao longe emoldurada por um dia ensolarado de primavera me fazia até respirar melhor. Quando cheguei à propriedade, um lugar lindo com um casarão histórico, me senti dentro de um daqueles catálogos de vinhos repletos de fotos. Eu juro: poderia ter voltado dali e mesmo assim teria sido ótimo. Mas segui em frente e fui recebida pelo Álvaro Castro, o dono da Quinta da Pellada. Me tratou, sem nunca ter ouvido falar de mim, como se fôssemos amigos de infância. E olha que minha insignificância no mundo do vinho era, naquela época, a terceira potência do que é hoje. Passamos horas muito agradáveis. O Álvaro, um homem espirituoso, brincalhão e muito à frente do seu tempo, foi quem me disse, pela primeira vez, que não existe certo ou errado na combinação de vinho com comida, porque a língua de cada um é que decide o que vai bem. E uma mesma língua pode ter percepções diferentes ao longo do dia, da semana, da vida.”

Paula, ainda de braços cruzados, demonstrava impaciência.

“Dá para ser um pouquinho mais objetiva? Em que momento a gente vai chegar no vinho?”

“Acompanhei Álvaro e sua filha Maria – que é enóloga e à época estava trabalhando com o pai – pela propriedade.  Era época da vindima… um movimento alegre de pessoas indo e voltando dos vinhedos. E ainda tive a oportunidade de ver o início da produção do vinho. Como você pode ver, mesmo sem provar nenhum vinho, a visita já estava sendo ótima. Quando, finalmente, fomos para a degustação dos vinhos e provei o Quinta da Pellada, uma garrafa igual a essa que você tentou abrir, eu tive a sensação de que fazia parte daquele cenário, daquele universo.  Um vinho maravilhoso! Comprei duas garrafas para trazer para o Brasil.”

“E?”

“Quando abri a primeira garrafa, algum tempo depois, meio nostálgica, fui procurar as fotos da viagem. E, descobri que os cupins haviam destruído as minhas lembranças: as fotos e o filme. É, isso aconteceu há muito tempo, quando não existiam máquinas fotográficas digitais.  Fiquei arrasada! Por isso decidi guardar a outra garrafa de Quinta da Pellada, para o momento em precisar, ou quiser lembrar daquele dia maravilhoso. O vinho certo para ativar aquelas lembranças. Uns goles e viajo sem passaporte para o Dão.  Mas para isso, eu tenho que estar no clima certo, para não desperdiçar nada do que esse vinho pode me oferecer.”

“Uau! Que estória! Me chama para assistir, quando virar filme.”, disse Paula com ironia.

“É por isso que eu não vou abrir esse vinho, porque hoje eu não estou precisando voltar ao Dão.”, disse Danuza decidida.

“Ou não quer…”

“O que eu quero é colocar o Quinta da Pellada de volta na adega.  Escolhe outro vinho. Ou quer que eu escolha?”

“Não! Perdi a vontade de beber vinho! Hoje, pelo menos. Mas não pense que vou esquecer esse Quinta da Pellada. Não mesmo! Mas, por enquanto, vamos voltar à primeira opção: a tal vodca.”

Danuza animada sorriu, pegou a vodca no armário e entregou a Paula.

“Vou pegar uns copos, que essa taças de vinho não combinam com vodca.”

Paula examinou a garrafa, como fez com o vinho.

“Vodca Tufão. Nome sugestivo. E o rótulo  – ela observa antes de continuara a falar – é mimeografado?”

Danuza voltou com os copos da cozinha. Pegou a garrafa das mãos de Paula e examinou o rótulo, cujos detalhes conhecia há muito tempo e fingiu-se surpresa.

“Parece que o rótulo é mimeografado realmente. Ganhei há tanto tempo e nunca tinha notado. Talvez seja uma produção artesanal…”

“Um presente que ganhou e guardou por tanto tempo… É outra bebida para teletransporte, não? Pode me dizer para onde estamos indo?”

Danuza despeja a vodca em dois copos de geleia.

“Para os meus 20 anos de idade. Para um jeans 38.”

“Deixa de ser genérica, que essa Tufão,  guardada por mais  de 30 anos deve ter presenciado algum momento singular da sua vida. Uma vida, anterior ao Quinta da Pellada, com certeza. E que, sabe-se lá porque, você quer reviver com detalhes. Ou então não estaríamos bebendo em copos de geleia.”

Danuza sorriu e assentiu que sim. E, então, brindaram com seus copos de geleia. E cantaram Cheias de Charme juntas com Guilherme Arantes. Elas, na sala. Ele, no computador.

A paisagem através de uma taça de vinho

Se alguém me perguntasse, naquele dia, o que significava viajar, eu teria dito: viajar é engordar. Porque, em Portugal, comer e beber não era uma opção: era uma oportunidade que acontecia mais vezes que a minha necessidade de comer ou beber.  Era o preço para entrar no cenário e apreciar a paisagem de um referencial privilegiado: a mesa.

A viagem a Portugal já estava por terminar. Em breve eu e minha amiga estaríamos de volta ao Brasil. De volta às nossas roupas. De volta à balança do banheiro.

balanca

Aquela lembranças e a bermuda que me apertava a cintura resgataram de minha memória um folheto de propaganda que vira no saguão do hotel: um passeio de caiaque pelas águas calmas do rio Degebe, perto de Évora, onde estávamos. Era o que eu precisava naquele momento: turismo contemplativo – sem comida ou bebida – com exercício.

Ou, pelo menos, uma tentativa de fazer meu corpo consumir a energia acumulada na viagem por Portugal, conhecendo-o, a partir de um referencial diferente… da mesa, das igrejas, das garrafas de vinho.

Com o passeio agendado, eu e minha amiga rimos ao constatarmos que nunca tínhamos andado de caiaque.

No dia e hora marcados, embarcamos num jipe com nosso guia Luís, um português falante e simpático, em direção ao rio Degebe.
Quando cheguei, fiquei feliz com o programa diferente. A paisagem do Alentejo, vista da margem de um rio, numa manhã de sol, valeu pelos os quilômetros de estrada de terra percorridos num jipe sacolejante.

 

Na beira do rio, de onde iniciaríamos o passeio, Luís, apresentou o formato do passeio: eu e minha amiga utilizaríamos um caiaque duplo e ele iria num caiaque individual, nos guiando pelo rio durante duas horas, tempo que estimava para que fôssemos e voltássemos do local onde se fazia uma parada para descanso. Nos apresentou o caiaque duplo e os remos. E deu as instruções para manobrá-lo de um modo geral e também como uma dupla.

Remar cadenciado, remar do lado contrário para mudar a direção, quem dá a direção é o da popa …

Quando Luís terminou seu briefing, corri em direção ao caiaque e me posicionei na popa, para garantir que seria a comandante da embarcação. Minha amiga, sem opção, entrou em seguida na proa.

 

Navegamos com calma, como parte daquele local bucólico e calmo, observando a natureza, os peixes, as aves, o horizonte, as vacas que pastavam na margem…

 

Essa era a proposta do passeio, descrita no folheto de propaganda. Era isso que deveria ter sentido durante o passeio de caiaque! Mas, no lugar dessas sensações edificantes, remei, remamos por quatro horas. Em círculos, em zigue-zague, às vezes em linha reta. Encalhamos em pedras, em montes de areia, nas margens do rio. Ficamos presas em galhos de árvore. Quase perdi meus óculos e nos molhamos, muito. Descobri que não é possível frear um caiaque. Troquei de lugar duas vezes, da proa para a popa, porque minha amiga creditava os erros de nossa “navegação”  ao meu comando na popa. E discutimos por cada movimento errado, por cada pingo de água que caiu dentro do caiaque, por todas as vezes que ignorávamos a existência uma da outra.  Luís, do seu caiaque, de uma distância segura, indicava os pontos a serem observados no passeio e não interferiu na condução do caiaque duplo.

Quando voltei à terra firme estava exausta, molhada e com a sensação de ter desperdiçado todos os meus sentidos durante o passeio, apenas remando. E, pelo olhar de ódio que minha amiga me lançou, além da paisagem durante o passeio, perdi a amiga também.

 

Enquanto trocávamos as roupas molhadas protegidas pelo jipe e observadas pelas centenas de vacas que pastavam – uma narrativa que não cabe nessa estória, Luís havia montado uma mesa com pão, presunto, queijos e vinho.

Uma surpresa para as nossas remadoras. Tudo do Alentejo. Presunto de porco preto, pão alentejano caseiro, queijo de leite de ovelha e vinho. – disse Luís.

O cansaço abriu meu apetite de tal maneira que não foi preciso insistir:  me rendi à surpresinha de Luís. Minha amiga, do lado oposto da mesa, também se rendeu. Em Portugal, contemplação tem comida!

Iniciamos nosso lanchinho em silêncio, que era o melhor a não dizer, depois do passeio estressante. O silêncio era melhor do que as discussões que tivéramos enquanto remávamos.

Alguns goles de vinho mais tarde, com a raiva abrandada, já conversávamos… sobre o passeio, a beleza do lugar, o programa diferente.

Meia garrafa consumida e já riamos de nossos desacertos ao remar em dupla.

Luís, então, me perguntou o que tinha achado do passeio. Cercada pelas vaquinhas e olhando a garrafa do Vila Gamas tinto, um regional Alentejano simples e honesto, que Luís nos servia, soltei, sem filtro, o que me veio à mente:

Logo que saí do caiaque, se tivesse que resumir o passeio em uma frase diria que: remar e passear são verbos que não combinam. Mas agora, alguns goles de vinho depois, passear de caiaque no rio Degebe foi um dos melhores passeios que fiz em Portugal. As terras de Pêra Manca produzem vinhos concentrados de boas lembranças do Alentejo. Quando bebido, elimina lembranças desagradáveis. Só deixa as imagens e os sabores de Portugal na memória.

Luís sorriu e ergueu seu copo de refrigerante num brinde.

Então meninas, ainda amigas?

Sim. Desde que não falte vinho! – disse minha amiga enquanto acertava sua taça na minha.

E brindando, pensei: desde que sejamos sempre meninas.

O primeiro vinho natural a gente não esquece, principalmente se for da Bodega Cauzón

Duas frases que ouvi antes e durante a viagem à Espanha: “Não deixe de conhecer Alhambra!” e “Granada é muito mais que Alhambra!”. Separadas, pareciam disputar uma queda de braço: de um lado Alhambra, do outro o resto de Granada. Mas como uma única frase – “Não deixe de conhecer Granada: há Alhambra e muito mais.”, resumia o que pretendia fazer em Granada. E para garantir minhas pretensões, comprei, antecipadamente, o ingresso para uma visita noturna a Alhambra.

 

E busquei, com a ajuda do meu guia cibernético – sempre ele, o google,  além dos muros da fortaleza, a tal Granada que merecia ser conhecida e que eu gostaria de conhecer: as bodegas, os vinhos de Granada.

 

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Para quem não sabe exatamente o que quer, 455.000 respostas. Na primeira, o endereço eletrônico de um restaurante, não era o que procurava. Mas a segunda, achei que valeria a pena navegar. Cliquei. Era exatamente o que eu queria: um sitio eletrônico com informações, entre outras, sobre enoturismo no entorno de Granada, com possibilidade de visitas à bodegas e degustações de vinhos. Continuei a navegação para o endereço eletrônico das bodegas, para saber um pouco mais. Duas delas produziam vinho natural. Vinho natural? Perguntei à amiga que me acompanhava na viagem se ela sabia o que era ou se tinha bebido vinho natural.

Já bebi artificial. Sangue de Boi. Mas isso é passado.

E lá fui eu para o google de novo, para tentar desvendar o que era vinho natural.

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Mais uns cliques e algumas leituras. Descobri que vinho natural é aquele produzido com um mínimo de intervenção, sem sulfito. E, o mais interessante, é que a terceira resposta das 17.100.000 respostas para minha pergunta “vino natural que es” é uma bodega que produzia vinho natural e que ficava em… Granada

Eu sabia que as pesquisas que o google faz para um usuário, eu, no caso, tem relação com seu perfil de pesquisas – eu tinha acabado de pesquisar sobre Granada. Mas preferi enxergá-lo como um oráculo dessa vez, me revelando no mundo virtual por onde seguir no mundo real dos vinhos. Como ficaria em Granada dois dias, agendei duas visitas a bodegas. A primeira para a Bodega Cauzón, descoberta na primeira pesquisa, 50 km distante de Granada. A segunda para Barranco Oscuro, mais distante, resultado da pesquisa sobre vinho natural. A Granada além de Alhambra estava garantida.

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Chegou o dia: estava na estrada, em direção à primeira bodega a ser visitada, a Bodega Cauzón. No caminho, a Sierra Nevada em pleno verão. Parecia um aperitivo para qualquer que fosse o resultado da visita.

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Sem grandes dificuldades – o que significa que houve retornos fáceis para os caminhos errados e as pessoas a quem perguntei como chegar ao meu destino foram objetivas –  estacionei em frente à Bodega Cauzón, cerca de 50 km de Granada, 1000 metros acima. Na hora combinada Ramón Saavedra estava na porta de sua Bodega.

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Contei-lhe sobre a trajetória desde “Granada é muito mais que Alhambra” até sua bodega de vinhos naturais. E que tinha ficado curiosa com o assunto vinho natural. Estava escrito, disse sorrindo. Por caminhos que só o mecanismo de pesquisa do google consegue percorrer. Pensei.

Apresentou a estrutura da bodega, que não é muito diferente de outras bodegas: equipamento para maceração das uvas, tanques de aço inox para fermentação, caixas com garrafas de vinho. Tudo organizado, limpo e refrigerado.

Foi, então, que fiz a primeira pergunta clichê: Porque decidiu fazer vinho? Eu queria iniciar uma conversa, saber mais sobre a bodega. Mas, me arrependi de ter feito uma pergunta tão sem graça e que na maior parte das vezes, em Portugal e Espanha onde há vinhedos por todo lado, tem uma resposta quase padrão: meu avô fazia vinho, meu pai fazia vinho. Eu decidi fazer vinho também. Ou o vinho sempre fez parte da minha vida. Mas Ramón tinha uma estória um pouco diferente. Ele era cozinheiro, de um restaurante estrelado soube depois, e por isso aproximou-se dos vinhos. Um dia quis mudar de vida. Na equação da transformação da vida entraram os vinhos, voltar a viver em Graena, de onde tinha saído jovem para trabalhar, um pedaço de terra que já possuía e poder lidar e valorizar a natureza para ter bons produtos. O resultado é que passou a fazer vinhos com o que a terra lhe oferecia e lhe ensinava, assim como ofereceu a terra seu trabalho, sua dedicação, seu tempo.

Propôs que continuássemos a conversa degustando seus vinhos, um andar abaixo de onde estávamos, no subsolo, na “ sala de cata”, onde são feitas as degustações. Lá, pegou três taças, algumas garrafas de vinho e acomodou-se atrás de um balcão de madeira. E, não consegui me conter, fiz a segunda pergunta clichê para quem produz vinho natural: o que é vinho natural? Como são elaborados?

Ele respirou fundo e disse que fazer vinho natural era filosofia de vida. E, me surpreendeu, de novo, pois já tinha imaginado uma resposta técnica para a minha pergunta. E continuou: se a terra é mantida saudável, sem química, suas características são preservadas – que nada mais é do que o terroir. E se houver sol e chuva na medida, as videiras produzirão frutos concentrados e saudáveis. Depois de colhidas e maceradas as uvas produzem o mosto, que é colocado em tanques para fermentar com suas leveduras naturais. Sem correções, sem outras leveduras estrangeiras, sem sulfitos. A fermentação é monitorada para que o que se deseja e para o que não se deseja obter. Depois esse líquido vai para a garrafa ou para um estágio em barrica de carvalho. É assim que são feitos os vinhos da Bodega Cauzón. Naturalmente.

E abriu o Mozuelo 2014, 100% garnacha direto dos tanques de inox para as garrafas, disse. Enquanto os primeiros goles de vinho desciam pela boca, Ramón contou como os produtores de vinho natural, como ele, baseiam a sua produção. Cuidam da terra sem química, respeitando-a. Conhecem cada etapa, cada processo para a produção de vinho. Trabalham arando a terra, se for preciso, até. E se há um “culpado” para o vinho, esse alguém é o bodegueiro, o vinicultor.

Mozuelo 2014

Ele estava entusiasmado, didático, explicando os pontos básicos do vinho natural. Mas, a despeito disso, eu o interrompi. Foi mais forte que eu. Eu tinha que lhe relatar a sensação estranha que estava sentindo: parecia não haver resistência do meu corpo ao vinho. Como se não houvesse atrito entre um pneu e a estrada para fazer um carro parar. Uma sensação que nunca havia sentido com os vinhos, por melhores que fossem. E bebi mais um gole. Ramón sorriu e disse. O que você está sentindo é porque não tem química, é natural. Desde 1999 o vinhedo é cuidado sem química. A terra devolveu o bom tratamento, produzindo uvas saudáveis e concentradas. Fez a maior parte da tarefa para produzir um bom vinho, disse.

Bebi o restante da taça. Descartar aquela sensação, nem pensar!

Em seguida, Ramón abriu o Pinot Noir 2014, que passou em barrica. Uma cor surpreendente. Limpo e elegante. Enquanto desfrutava da sensação de deixar meu corpo ao sabor do vinho, Ramón contava do compromisso que os produtores de vinho natural devem ter com o meio ambiente, com o uso de produtos recicláveis: vidro e cortiça, nada mais reciclável. O uso otimizado de água e energia. Coerência é fundamental. E, de novo, não descartei uma gota sequer.Pinot Noir 2014

Ramón abriu o Duende 2014, 100 % Shiraz, que disse, foi elaborado com muito capricho. E deve ter sido mesmo, pois estava fantástico. A sensação de simbiose com o vinho era uma coisa nova, além dos aromas e sabores. E ele contou que vinho natural traz sim essa sensação de aromas e sabores limpos que despertam a língua para aquilo que ainda não foi percebido.

Gostei de despertar a língua!IMG_20160514_151754596

Eu não sabia quais eram as perguntas certas a serem feitas e já tinha feito algumas perguntas óbvias. Mas conversávamos porque ambos estávamos interessados não apenas em relatos, informação, perguntas inteligentes, mas em comunicação: ele queria falar, mas também queria ouvir. Ouvir sobre minhas experiências com o vinho. Sobre o Brasil. Sobre os motivos de viajar para conhecer vinhos. Contou que é um brasileiro que faz o desenho de seus rótulos. E nos mostrou, com brilho nos olhos, vários deles, explicando os desenhos, as ideias por trás dos rótulos. Foi depois do que disse sobre leveduras que entendi porque não se deve usar levedura comercial, estrangeira, nos vinhos naturais – apenas as cascas da própria uva: para garantir o terroir, para que o vinho da serra nevada tenha o sabor, o terroir, da serra nevada e não de algum outro lugar onde uma levedura tenha sido produzida.

E finalmente fui apresentada a questão do sulfito: que nunca deve ser adicionado, nem às uvas antes da serem maceradas, nem ao mosto que produzirá o vinho, nem para limpeza dos equipamentos. E foi enfático: é tóxico. É um veneno. Minha amiga, como tivesse acordada de um transe, o interrompeu para contar de algo que lembrara, uma palestra que assistira, anos antes, sobre o processo para produção de vinho. Naquela palestra, o apresentador, enólogo, mostrava uma foto sua, totalmente protegido, aspergindo alguma coisa em um tanque, para ilustrar a etapa de adição de sulfito ao mosto do vinho. Foi quando ela perguntou: se você precisa dessa roupa para colocar o sulfito, o que deve ser usado para quem vai beber o vinho?  Sua expressão de assustada ao fazer a pergunta provocou risos nos outros participantes, que se atropelavam para dizer que não existe vinho, bom, enfatizaram, sem sulfito; que todo vinho tem sulfito. Ela ficou sem graça. Lembrava da situação, da palestra, mas não lembrava da resposta. E nunca mais perguntou sobre o assunto, com receio de ser ridicularizada.

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O sulfito é um bactericida que vem sendo utilizado pela indústria vinícola para: evitar a deterioração do vinho, corrigir imperfeições, retardar o amadurecimento da uva – para que não inicie o processo de fermentação antes de chegar a vinícola. O sulfito está presente em vários tipos de alimento: adicionado para conservação em enlatados, por exemplo, ou gerado de forma natural como resultado da fermentação ou da passificação – frutos secos tem sulfito. A legislação de cada país estabelece uma quantidade aceitável de sulfitos por litro de vinho e que varia com o tipo. Entretanto, sua manipulação é considerada tóxica, exigindo a utilização de roupa protetora.

E essa é a grande mudança de paradigma do vinho natural. Não corrigir o vinho com sulfito. O sulfito aceitável no vinho natural é apenas aquele resultante da fermentação das uvas– que produz vários componentes químicos, entre eles o sulfito.

Entre goles do Duende – ele encheu nossos copos de novo, o dele inclusive – contou que há maneiras de proteger o vinhedo sem pesticida. Que a química reduz os riscos pois corrige o vinho para mantê-lo dentro de padrões comerciais.  Que o vinho natural valoriza o terroir, pois expressa o que há na terra. Que vinho natural é orgânico, mas que vinho orgânico nem sempre é natural. E, que no final de tudo, toda garrafa de vinho, natural ou não, continuará a ser uma surpresa, dependendo de como evolui.

A garrafa seguinte foi um Cauzón 2013, 100% tempranillo e que passou 6 meses em barrica. Um vinho que me fez lembrar que não comia há pelo menos 4 horas.

Cauzón 2013

Então, Ramón deu o golpe final e serviu seu Cauzón Blanco 2013. Um corte de sauvignon blanc, viognier e torrontés. O líquido amarelado não era translúcido como os vinhos brancos que conhecia. E antes que perguntasse pela aparência diferente, ele explicou que o vinho natural não deve ser filtrado, clarificado forçadamente – para isso seria necessário química. A clarificação, quando acontece, é natural. Acontece, ao longo do tempo, resultado dos componentes naturais do vinho.

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Depois de 4 tintos empolgantes, o vinho branco parecia chegar despretensioso. Mas Ramón conhecia seus vinhos e o efeito sobre as pessoas. Depois de dois grandes goles, não havia mais o que falar. Estava ali o melhor do dia. Com todo o frescor que a tarde quente de Graena pedia. Podia ter perguntado o porque da combinação das uvas no Cauzón Blanco: para ganhar acidez, estrutura, mas preferi ouvir o ABBA cantar Dancing Queen, trilha sonora recorrente que ouço quando estou diante de alguma coisa que valha a pena ser lembrada, como o Cauzón Blanco.

“You can dance, you can jive

Having the time of your life”

Parabéns por seus vinhos, disse. E ele propôs um brinde aos que fazem o que amam.

Olhei o relógio. Já conversávamos há duas horas. A visita estava sendo maravilhosa, mas não parou o tempo. Tinha que voltar para Granada ou perderia a visita noturna à Alhambra, marcada meses antes. Hora de ir embora. Não haveria tempo para ver os vinhedos – 4 hectares na face norte da Sierra Nevada.

ingresso

Enquanto Ramón embalava algumas lembranças engarrafadas para nossa volta ao Brasil – um de cada que provamos, mais um Iradei para completar a caixa, reparei que, em uma das paredes de sua sala de cata, havia cartazes de eventos, salões de vinhos naturais já ocorridos colados displicentemente com fita durex. E lembrei das paredes de meu quarto de adolescente, também repleta de pôsteres de cantores e filmes que amava e que queria manter ao alcance da mão, ali na parede. Sem preocupação estética, os cartazes colados na sala de cata, mostravam o quanto Ramón ainda carregava a alma de um jovem que se apaixona por seus ídolos, pelas ideias, o quanto estava envolvido na filosofia de vinho natural. Muito além de apenas produzir e vender vinhos.Sala de Cata

 

Sala de Cata

 

 

 

 

 

Ao nos despedirmos ele disse que ” Se dice lo que se hace, se hace lo que se dice”  se diz o que se faz, se faz o que.  O derradeiro ponto sobre vinho natural que nos apresentaria: honestidade e transparência. Toda a informação pode ser fornecida para comprovar a autenticidade dos vinhos naturais.

No caminho de volta para Granada, com a Sierra Nevada como cenário e sob o efeito das sensações experimentadas pelos vinhos de Ramón, tudo finalmente fazia sentido.  Tinha entrado no mundo dos vinhos naturais por acaso, mas não foi por acaso que a filosofia por trás da produção de vinhos naturais tinha me encantado, me capturado. Olhando de longe, pode até parecer um protocolo de intenções da ONU para um mundo melhor, mas de perto, é o que cada um de nós pode fazer por aquilo que ama, no caso os vinhos. Além disso, os vinhos naturais podiam ser diferentes, às vezes, mas eram maravilhosos.

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Granada é mais que Alhambra! Com certeza.

 

P.S. A visita à Barranco Oscuro ficou para outra estória.

Buçaco Tinto Reservado 1992

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Quando: Dezembro de 1999. Um mês para o temido bug do milênio: uma espécie de fim do mundo para computadores e sistemas que utilizavam, para representar datas, o ano com dois dígitos -12/03/45, considerando que todos os anos são do século XX. O problema surgiu com a sobrevida desses sistemas que, acreditava-se, no ano 2000, já não estariam mais em funcionamento – no dia primeiro de janeiro de 2000, esses sistemas entenderiam que a data seria 01/01/00, gerando todo o tipo de problema que envolvesse data: faturamento, juros, rendimento etc. Um caos anunciado, mas que tinha solução: corrigir tudo relacionado às datas e testar antes que o ano 2000 aportasse, tarefa que a equipe de informática, da qual fazia parte, concluiu no primeiro dia de dezembro de 1999. Era hora de comemorar, disse o chefe de equipe que materializou, sabe-se lá de onde, uma garrafa de vinho tinto, rapidamente aberta e servida em copos descartáveis. Não lembro do nome do vinho. Ficou na memória apenas a sensação desagradável de beber, de uma vez, o copo de vinho morno. Um sacrifício para valer o brinde e não desagradar o chefe. E, principalmente, para o sofrimento ser rápido. Meus encontros com o vinho, excetuando-se o tempero para o pernil de Natal, provocavam mais questionamentos que prazer:

  • rascante é qualidade ou parte de um procedimento para deixar minha língua áspera como a de um lagarto?
  • vinho provoca dor de cabeça instantânea?
  • é acompanhamento ou enfrentamento? – o vinho brigava tão ferozmente com a comida, que às vezes tinha que parar de comer.
  • porque dizem que as mulheres adoram o vinho das garrafas azuis?

Feliz com o resultado e talvez com o vinho, o chefe me concedeu as tão sonhadas férias. Era a oportunidade para conhecer Portugal;

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Cenário: Mealhada, Portugal. Situação: eu e meu marido, sentados à mesa do restaurante, entorpecidos após a degustação de um Leitão à Bairrada, acompanhado de algumas taças de vinho. Decisão: abandonar a ideia de seguir viagem até a Cidade do Porto. Dúvida: onde poderíamos pernoitar. Resolução: algum hotel perto de onde estávamos, subindo para os lados da Mata do Bussaco, depois de uma consulta à garçonete.

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Estória: Com as indicações, chegamos a uma estradinha que subia sinuosamente em meio a um arvoredo fechado. Fomos seguindo, meio indecisos, pois não encontrávamos nenhum hotel. Até que a estrada acabou numa espécie de platô, onde estavam estacionados alguns carros. Havia um castelo nesse local, que parecia flutuar, iluminado, sobre a neblina. O que quer que fosse, valeria a pena conhecer. Estacionamos e entramos por uma porta que estava aberta e iluminada. Era a recepção de um hotel! O Bussaco Palace Hotel, um antigo Palácio de caça na serra do Luso, mais precisamente na Mata Nacional do Bussaco. De onde estávamos era possível ver parte dos salões e até uma armadura dourada, da qual destacavam-se dois olhos vermelho-vivos, que pareciam tomar conta da escada que levava ao segundo andar. Ficamos encantados. E talvez por isso, sem perguntar preço, decidimos que era ali que deveríamos passar a noite. Bastava, para isso, que houvesse um quarto livre. E havia!

Assim foi, sem reserva, sem planejamento ou qualquer informação antecipada, que chegamos ao Bussaco Palace Hotel, que foi o último palácio dos Reis de Portugal, transformado em hotel em 1917, considerado um dos mais belos hotéis do mundo.

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Acomodados e depois de um repouso exigido pelo farto almoço, decidimos descer para o restaurante do hotel. Mais para circular pelo lindíssimo salão de jantar do que para saciar a fome: o leitão à bairrada do almoço ainda era uma memória bastante viva. Pelo menos para mim.

Já sentados, depois de folhear o cardápio, disse à garçonete: “O que vocês tem para quem não está com fome? Acho que comi demais no almoço!” Ela, de um jeito que só os portugueses raciocinam, me disse, dura e cordialmente, “Aqui só temos pratos para quem tem fome!”. Sem graça, pedi um consomè de legumes e uma coca-cola. Meu marido, para meu espanto, pediu leitão à Bairrada, de novo. Pedidos feitos, chegou à nossa mesa o escanção – soubemos o nome depois, é claro – com a carta de vinhos. Um instrumento quase inútil para pessoas, como nós, que não conheciam nada de vinhos. Depois de olhar a carta de vinhos por precisamente três segundos, meu marido pediu uma sugestão ao escanção: “Queria beber um vinho típico da região do Bussaco”.

O escanção, visivelmente entusiasmado, disse-lhe que deveria aproveitar a oportunidade para beber um Buçaco, pois eram vinhos elaborados exclusivamente para consumo no hotel, que já encantaram reis, rainhas, chefes de estado, que vinham ao hotel somente para bebê-lo, pois eram vendidos somente no hotel. Ato contínuo, abriu a carta de vinhos e, depois de algum tempo e debate com meu marido, sugeriu um Buçaco Tinto 1992. Meu marido, tomado pelo espírito de algum nobre português, sequer quis olhar o preço do vinho. E concordou com a sugestão. Quando o escanção saiu para buscar o vinho, fui conferir seu preço. “O de 1993 é mais barato”, disse. Ele ignorou meu comentário, fingindo que olhava o salão.

Durante o jantar meu marido bebia o vinho com prazer incomum – ele geralmente parava na segunda taça – me oferecendo para prová-lo a cada gole que bebia. “Esse vinho é muito bom! Você deveria provar.” Tenho que admitir que os vinhos que até então bebera em Portugal eram bons. Mas, nada que tenha me entusiasmado para beber mais de uma taça. Me mantinha fiel à coca-cola, mas sua insistência e seu deleite estavam me deixando curiosa.

E para meu espanto, o garçom serviu o que restava da garrafa, pouco mais que um gole. Meu marido estava prestes a beber uma garrafa inteira de vinho! Alguma coisa diferente estava acontecendo. E eu não queria ficar de fora. Olhei para os lados em busca da garçonete: ela não estava no salão. Respirei aliviada: não queria ser vista bebendo vinho depois que disse “Vinho? Nem pensar!”

Peguei a taça e bebi o último gole de Buçaco.

A mudança: O vinho era diferente de tudo o que já tinha bebido com o rótulo de vinho. Parecia uma lembrança do futuro. Envolveu minha boca e aqueceu meu coração. Um cheiro – eu não chamava de aroma – magnético, se é que pode ser magnético: eu queria ficar com o nariz dentro da taça aproveitando o restinho que não dava para beber. Produziu uma fome instantânea de algo que ainda não tinha comido. E eu nem estava com fome! Tentei falar, dizer o que estava sentindo, mas eram tantas novas palavras conectando-se em minha mente que não consegui construir uma frase. Sensações novas que não tinham sido nomeadas dentro de mim. Eu só sorria. Era a primeira vez que um vinho me fazia pensar. Não só pensar em como foi elaborado: os vinhedos, as uvas, o processo. Pensar no motivo de ser tão diferente de tudo o que já bebi com o rótulo de vinho. Pensar em como me fez gostar de Portugal. Pensar nas pessoas por trás daquelas garrafas, o que fazem, no que acreditam. Pensar em outro momento para bebê-lo novamente. Pensar no que está no entorno daquele vinho. O hotel, seus funcionários, a mata do Bussaco, Coimbra. Mealhada. Os leitões. Pensar na garçonete. Imaginá-la rindo de mim achando que iria resistir aos vinhos do Buçaco. Pensar em cada gole de vinho não bebido. E eu nem sabia que os vinhos do Buçaco são ícones de Portugal, raros, venerados e capazes de durar muitas décadas.

Como num passe de mágica, eu me descobri encantada com vinhos. Apaguei de minha mente as experiências ruins. Minha estória com vinhos começava bebendo um gole roubado de Buçaco tinto.

Conclusão: Ficamos mais um dia no hotel, para conhecer um pouco sobre os vinhos do Buçaco: são vinhos produzidos pelo hotel para consumo de seus hóspedes. Uma decisão de Alexandre de Almeida, o dono do hotel, no início do século XX, para diferenciá-lo, como ocorria em outros hotéis de luxo na Itália e França. Sua produção é realizada de modo tradicional, em lagares abertos, pisa a pé, com uvas da família do proprietário do hotel, no sopé da Serra do Bussaco, e de uvas compradas de outros produtores na Bairrada e no Dão. Na adega, que fica no próprio hotel, há vinhos da década de 20.

Caminhamos pelas trilhas em volta do hotel, na mata do Bussaco. Admiramos Coimbra, pequena, da Porta de Coimbra, uma das saídas do hotel. E, é claro, bebemos uma garrafa de Buçaco. Dividida em partes iguais com meu marido durante o almoço. E viajamos, sentados à mesa, pensando em tudo o que havíamos aprendido naquela manhã.

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Ao deixar o hotel, percebi que os vinhos do Buçaco engarrafavam vidas e estórias de um Portugal que sequer imaginava existir. Depois do primeiro Buçaco, deixo que os vinhos me guiem, deixo que mostrem por onde seguir.

Em 2013, voltei ao Palace Hotel Bussaco. No restaurante, a mesma garçonete que me atendeu em 1999.

 

P.S. Não é falha de memória. Só os vinhos são escritos com ç. A mata e o hotel são escritos com ss.